A história esquecida das resistências populares no Brasil
- Geo Expand

- 27 de abr.
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Memória, resistência e protagonismo popular na construção da identidade brasileira
Diversas insurreições populares e embates armados ocorreram durante a história do Brasil, entretanto não são valorizadas na historiografia e muitas vezes omitidas, e quando contadas, são do ponto de vista dos vencedores: o exército brasileiro, que retrata como “movimentos que espalharam terror” por parte da periferia e população negra, que tiveram grande participação em movimentos estruturantes na formação da identidade brasileira.
De acordo com Ale Santos, investigador das histórias africanas e afro-brasileiras, à respeito da omissão de revoltas: “Imagine um Brasil de 100 anos atrás, com a maior parte da população negra vivendo em senzalas, um Rio de Janeiro onde viviam 110 mil pessoas escravizadas. Seria muito fácil reproduzir revoluções como a francesa ou a independência haitiana. O medo disso fez com as revoltas e a história fossem apagadas, fazendo pessoas acreditarem que descendiam de gente que não lutou, porque assim a sociedade sempre continuaria a mesma.”
Portanto, a valorização de tais movimentos compreende as suas causas e consequências no espaço atual brasileiro, que incluí mobilização popular, grande participação da população afro-brasileira e um povo que lutou por suas causas e por desejo de mudanças. Pois mesmo que silenciosamente, compartilhamos a crença de que o Brasil é um país sem histórias de luta, porque a narrativa aprendida e disseminada é majoritariamente de feitos portugueses, com isso, entregamos toda nossa identidade aos portugueses e à perspectiva contada por eles, dessa forma os movimentos que modificaram o Brasil e custaram vidas de afrodescendentes, escravizados, povos nativos e classe mais economicamente desfavorecida brasileira são apagadas da história ou possuem menos visibilidade. Assim, a população brasileira passa a acreditar que sua identidade é fundamentada nas Grandes Navegações, na sua colonização, na Carta de Pero Vaz de Caminha e nos reis portugueses, quando na verdade a participação realmente brasileira é rica, cheia de história, luta e de grande contribuição para a identidade do povo brasileiro, como por exemplo as diversas insurreições populares que ocorreram durante o Brasil colônia, que serão apresentadas à seguir por ordem de acontecimentos.
Conjuração Baiana
Entre esses movimentos, um dos primeiros a se destacar foi a Conjuração Baiana, que ocorreu em Salvador, em 1798. Também conhecida como Revolta dos Alfaiates, ela foi liderada por trabalhadores como João de Deus e Manuel Faustino dos Santos Lira, além dos soldados Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas. O movimento foi formado por escravizados, negros livres, brancos mais economicamente desfavorecidos e mestiços, que trabalhavam como sapateiros, pedreiros e soldados.
A revolta tinha como principais objetivos separar a Bahia de Portugal, abolir a escravidão e criar uma sociedade mais igualitária. Foi influenciada pela Revolução Francesa e pela Revolução Haitiana, e também pela maçonaria, especialmente pela loja Cavaleiros da Luz, que reunia intelectuais que liam e traduziam autores como Voltaire e Rousseau.
Outro fator importante foi a situação de miséria em Salvador, que piorou depois que a capital foi transferida para o Rio de Janeiro, em 1763. No dia 12 de agosto de 1798, a cidade amanheceu com panfletos espalhados convocando a população à luta, com frases como: “Animai-vos povo baiense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade”.
A repressão foi rápida, houveram denúncias, prisões e perseguições. Ao todo, 49 pessoas foram presas, incluindo três mulheres e nove escravizados, os principais líderes foram condenados à morte por enforcamento e esquartejamento e seus corpos foram expostos pela cidade como forma de intimidação. Já os intelectuais ligados à maçonaria receberam penas mais leves ou foram absolvidos. Mesmo com esse fim violento, a Conjuração Baiana influenciou outros movimentos importantes, como a Independência do Brasil, a Revolta dos Malês e a abolição da escravidão.

Revolta dos Malês
Essa revolta aconteceu na Bahia em 1835. Ocorreram cerca de 30 revoltas populares, destacadas por sua organização. Foi liderado por negros muçulmanos vindos da África, como Luiza Mahin e Pacífico Licutã, malês. Lutavam contra a escravidão e dentre um Estado católica, também pela liberdade religiosa. Os malês eram conhecidos por serem muito organizados, serem poliglotas e terem alto nível de conhecimento, muitas vezes maior que o da elite portuguesa, consequentemente, gerava medo nos senhores de escravos.
Um símbolo importante do grupo era o uso de amuletos com trechos do Alcorão, como mostra na imagem a seguir.
Apesar da grande organização e da chance real de sucesso, o movimento foi duramente reprimido pelas forças oficiais e não obteve vitória.

Balaiada
O nome “Balaiada” deriva dos balaios, cesta composta por trançados, cujo o líder desse movimento produzia, chamado Manoel Francisco dos Anjos Ferreira. Assim como o líder, a Balaiada foi composta por trabalhadores livres, artesãos e pessoas escravizadas. Um ponto muito importante foi a participação quilombola, especialmente do líder Negro Cosme, que integrou seus quilombos ao movimento.
No início as reivindicações eram principalmente relacionadas ao trabalho, como melhor distribuição de terras e cargos. Porém, com a participação dos quilombolas, o movimento ganhou um caráter abolicionista da escravidão, visto que houve ocupação de fazendas e libertação de pessoas escravizadas. A revolta foi duradoura e preocupou o exército, mas acabou sendo reprimida com violência.
Guerra de Canudos
Ocorreu entre 1896 e 1897, no sertão da Bahia. O movimento foi liderado por Antônio Conselheiro, um peregrino que pregava contra a fome, a seca e a miséria, além de criticar a forma como a República estava sendo implantada. Ele se apresentava como um enviado de Deus e atraiu milhares de seguidores. Cerca de 25 mil pessoas passaram a viver na comunidade de Canudos, formada na fazenda Belo Monte, que havia sido ocupada por eles.
A comunidade começou a incomodar vários grupos: a Igreja, que perdia fiéis; os latifundiários, que temiam novas ocupações de terra; e o governo, que via aquilo como uma ameaça. Foram feitas quatro tentativas de destruir Canudos. As três primeiras falharam, inclusive porque o exército não conhecia bem a região. Na quarta tentativa, o presidente Prudente de Morais enviou cerca de 5 mil soldados com armamento pesado e canhões. Nessa fase, Antônio Conselheiro já estava morto, por causas desconhecidas. O resultado foi a destruição completa da comunidade, com cerca de 25 mil mortos, além de fome, violência extrema e até a exposição da cabeça de Conselheiro como “troféu”.
Canudos teve um fim violento e triste, esse acontecimento inspirou obras, como a cinematográfica nacional “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com massacre como metáfora a chacina de Canudos e personagem messiânico São Sebastião como o Antônio Conselheiro, representando precisamente a violência e repressão vivenciadas pelo brasileiro, especialmente nos contextos apresentados de revoltas.

Revolta da Chibata
A Revolta da Chibata ocorreu em 1910, no Rio de Janeiro e foi liderada por João Cândido, também conhecido como “Almirante Negro”. O movimento foi feito por marinheiros, em sua maioria negros, que sofriam com péssimas condições de trabalho dentro da Marinha, incluindo castigos físicos com chicote, do qual eram castigados caso houvesse faltas graves com 25 chibatadas, uma prática que lembrava diretamente a escravidão que havia sido “abolida” em 1888.
O estopim para a revolta foi quando o marinheiro Marcelino Rodrigues após ter ferido um colega da marinha, foi punido com 250 chicotadas na presença dos outros marinheiros, isso desencadeou um motim, que resultou no assassinato do comandante do navio e mais três oficiais
Durante a revolta, os marinheiros tomaram controle de navios importantes da marinha brasileira e exigiram por meio de uma carta redigida por Cândido, que exigia o fim das chibatas, melhores condições de trabalho e de alimentação, além de anistia para os participantes da revolta, caso contrário, bombardeariam a cidade de Rio de Janeiro, capital do Brasil, a anunciação gerou pânico generalizado nos moradores da cidade, de forma que as condições fossem aceitas. Embora o presidente tenha aceito as condições, posteriormente houve a expulsão dos participantes da revolta, incluindo João Cândido e só receberam anistia em 1912, após a ocorrência de uma segunda revolta que foi fortemente reprimida, como sempre, com forças armadas.
Greve dos Queixadas
A Greve dos Queixadas aconteceu no bairro de Perus, em São Paulo, entre 1962 e 1969, sendo uma das mais longas da histórias do Brasil, teve duração de sete anos, o nome dado faz alusão ao porco-do-mato, que ataca em bandos, visto que englobou a luta de diversas pessoas.
Foi composta por 3500 operários de uma fábrica de cimento, chamada “Companhia de Cimentos Porland Perus” (a primeira grande da região) se organizaram contra os atrasos salariais e descumprimentos de leis trabalhistas pela família Abdalla, através de uma resistência não violenta e “firmeza permanente”.
Os resultados foram positivos, após anos de greve, reivindicaram melhores condições em 1969 e em 1974 o governo exigiu o pagamento para diversos funcionários de 18 milhões de cruzeiros.
Conclusão
Em suma, ao observar todos esses movimentos, é evidente que a história do Brasil não é feita apenas por reis, navegadores ou elites. Ela também foi construída por pessoas comuns - muitas vezes negras, pobres e marginalizadas - que lutaram contra desigualdades, injustiças e pela transformação da sociedade, em meio a repressão e resposta contínua de violência por parte do Estado contra qualquer manifestação.
Assim, a valorização da história brasileira com participação de pessoas comuns e análise através de suas perspectivas é de extrema importância para compreender o cenário e identidade brasileira como um todo, não apenas de uma visão eurocêntrica, que visa desfocar narrativas latinas, que incluem povos afrodescendentes e nativos como indivíduos que não conquistaram seus direitos e condições justas, para que a população sendo identitária a um povo que luta, também lute por suas causas e direitos justos.
Sobre o artigo
Este artigo analisa a invisibilização histórica das resistências populares no Brasil, destacando movimentos sociais protagonizados por populações negras, pobres e marginalizadas. A reflexão busca compreender como essas insurreições contribuíram para a formação da identidade brasileira e como sua omissão reforça narrativas eurocêntricas na historiografia nacional.
Autoria
Laura Castro
Referências
EDUCAÇÃO E TERRITÓRIO. 5 revoltas populares e participação afro-brasileira na organização social do Brasil. Disponível em: https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/5-revoltas-populares-e-participacao-afro-brasileira-na-organizacao-social-do-brasil/.
TODA MATÉRIA. Conjuração Baiana. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/conjuracao-baiana/.
CURSO DE HISTÓRIA. Revolta da Chibata. Disponível em: https://cursodehistoria.webnode.page/pesquisas/brasil/revolta-da-chibata/.
BRASIL ESCOLA. Guerra de Canudos. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/canudos.htm.
SCIELO. [Artigo sobre movimentos sociais – título conforme página]. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/a/77n6YMfsGXfjwFVdmrp8Jrm/?format=html&lang=pt.




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