A "Matriz de Dominação" nas instituições internacionais: Uma análise das políticas de gênero da ONU
- Geo Expand

- 28 de mai.
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Entre avanços institucionais e desigualdades estruturais: como a teoria de Patricia Hill Collins ajuda a compreender os limites das políticas de gênero da ONU no sistema internacional.
As discussões sobre gênero nas instituições internacionais tornaram-se cada vez mais relevantes nas últimas décadas, principalmente com o fortalecimento dos movimentos feministas e a cobrança por políticas públicas mais inclusivas. Entre essas instituições, a Organização das Nações Unidas ocupa posição de destaque por formular diretrizes e compromissos internacionais voltados à promoção da igualdade de gênero. Entretanto, apesar dos avanços alcançados, ainda existem desigualdades estruturais que revelam limites e contradições dentro dessas políticas.
A partir da teoria da matriz de dominação, desenvolvida por Patricia Hill Collins, torna-se possível analisar como gênero, raça, classe e território se conectam na produção das desigualdades sociais. Com base nisso, este artigo discute a atuação da ONU em relação à pauta de gênero, observando avanços institucionais e desafios ainda presentes. Argumenta-se que, embora a organização tenha ampliado o debate sobre igualdade e fortalecido instrumentos importantes de proteção às mulheres, ainda existem barreiras estruturais que atingem especialmente mulheres negras, periféricas e pertencentes ao Sul Global.
Gênero e relações de poder no cenário internacional
A desigualdade de gênero continua sendo uma das formas mais persistentes de injustiça social no mundo contemporâneo. Mesmo diante de avanços importantes conquistados nas últimas décadas, milhões de mulheres ainda enfrentam obstáculos relacionados à violência, à desigualdade salarial, à baixa representação política e ao acesso desigual a direitos básicos.
Dentro das Relações Internacionais, esse debate ganhou maior visibilidade a partir da atuação da Organização das Nações Unidas, instituição que passou a incorporar pautas femininas em conferências, tratados e metas globais.
No entanto, pensar políticas de gênero em escala internacional exige compreender que a experiência feminina não é universal. Mulheres de diferentes realidades sociais vivenciam desigualdades de formas distintas, influenciadas por fatores como raça, classe, nacionalidade e território.
É nesse contexto que a teoria da matriz de dominação, formulada por Patricia Hill Collins, torna-se essencial. Ao demonstrar que sistemas de opressão atuam de maneira interligada, a autora oferece uma perspectiva crítica capaz de ampliar a análise das políticas institucionais.

Dessa forma, este artigo busca compreender de que maneira as políticas de gênero da ONU enfrentam desigualdades estruturais e até que ponto ainda reproduzem relações históricas de poder dentro do sistema internacional.
A matriz de dominação e os desafios das políticas globais
A teoria da matriz de dominação foi desenvolvida pela socióloga Patricia Hill Collins dentro do feminismo negro. Segundo a autora, sistemas de opressão como machismo, racismo e desigualdade econômica não devem ser analisados separadamente, pois funcionam de forma conectada.

Isso significa que a vivência feminina não acontece da mesma maneira para todas as mulheres. A realidade de uma mulher branca e economicamente privilegiada pode ser profundamente diferente da realidade de uma mulher negra em situação de vulnerabilidade social.
A matriz de dominação contribuiu diretamente para fortalecer o conceito de interseccionalidade e ampliar discussões feministas ao mostrar que a desigualdade social envolve múltiplos fatores. Quando aplicada às Relações Internacionais, essa teoria também permite observar que o cenário global funciona por meio de hierarquias. Países com maior poder econômico concentram mais influência política, enquanto regiões periféricas possuem menor participação nas decisões institucionais.
Dessa forma, as desigualdades internacionais também se relacionam com estruturas históricas e econômicas que afetam principalmente grupos socialmente marginalizados.
A construção das políticas de gênero dentro da ONU
A atuação da ONU em relação à igualdade de gênero ganhou força principalmente a partir do século XX, acompanhando a mobilização crescente de movimentos feministas ao redor do mundo.
Um marco importante foi a Conferência Mundial sobre as Mulheres, realizada em Pequim, em 1995. A partir desse encontro, foi construída a Plataforma de Ação de Pequim, documento internacional que estabeleceu compromissos relacionados ao combate à violência contra as mulheres, ao acesso à educação, à participação política e à autonomia econômica feminina.

Esse processo representou um avanço histórico ao reconhecer a desigualdade de gênero como um problema estrutural e coletivo.
Posteriormente, a criação da ONU Mulheres fortaleceu ainda mais essa pauta.
A partir disso, temas como violência doméstica, desigualdade salarial, direitos reprodutivos e representação feminina passaram a ocupar maior espaço dentro das discussões internacionais.
Essas ações foram fundamentais para ampliar a visibilidade da pauta feminista e pressionar os Estados nacionais a assumirem compromissos públicos relacionados à igualdade.
Ao transformar a desigualdade de gênero em questão diplomática internacional, a ONU ajudou a fortalecer reivindicações históricas e ampliar debates políticos em escala global.
Limites institucionais e permanência das desigualdades
Apesar dos avanços alcançados, a atuação da ONU também apresenta contradições importantes. A própria estrutura internacional ainda é marcada por desigualdades econômicas e políticas entre países.

Na prática, isso significa que nem todas as demandas recebem o mesmo nível de atenção institucional. Mulheres pertencentes ao Sul Global frequentemente enfrentam realidades marcadas por pobreza, racismo estrutural e desigualdades históricas que nem sempre aparecem com centralidade nas políticas globais.
Embora a ONU reconheça oficialmente a diversidade de experiências femininas, ainda existe uma distância entre o discurso institucional e a prática concreta. Mulheres negras, indígenas, periféricas e migrantes continuam enfrentando menor participação nos espaços centrais de decisão.
Sob uma perspectiva feminista crítica, também é possível questionar até que ponto a igualdade pode ser alcançada apenas por meio da inclusão dentro das estruturas já existentes.
Garantir presença feminina em cargos de liderança é importante, mas isso não elimina automaticamente desigualdades econômicas e sociais mais profundas.
Além disso, correntes feministas de esquerda apontam que parte das desigualdades enfrentadas pelas mulheres está diretamente ligada ao funcionamento do capitalismo global.
A precarização do trabalho, a desigualdade salarial e a sobrecarga de tarefas domésticas afetam principalmente mulheres pobres e racializadas.
Por isso, discutir igualdade de gênero exige pensar também em justiça econômica e transformação estrutural. A matriz de dominação torna-se essencial justamente por evidenciar essas conexões entre poder político, desigualdade econômica e exclusão social.
Entre avanços institucionais e transformações necessárias
A análise das políticas de gênero da ONU a partir da teoria da matriz de dominação demonstra que a instituição desempenhou papel importante no fortalecimento internacional da luta pela igualdade de gênero.
Conferências, tratados e organismos específicos representaram avanços históricos e ampliaram o reconhecimento global da desigualdade como problema estrutural.
Entretanto, também fica evidente que gênero não pode ser analisado de forma isolada.
As experiências femininas são atravessadas por fatores como raça, classe e território, que influenciam diretamente a maneira como a desigualdade se manifesta.

Nesse sentido, embora a ONU tenha contribuído para fortalecer direitos e ampliar debates internacionais, ainda enfrenta limites ligados às próprias estruturas de poder que organizam o sistema global.
Por isso, pensar políticas feministas dentro das instituições internacionais exige ir além da representação simbólica e buscar mudanças estruturais mais profundas.
A teoria da matriz de dominação permanece, assim, como uma ferramenta fundamental para compreender essas contradições e fortalecer a construção de uma política internacional mais justa, plural e comprometida com igualdade real.
Sobre o artigo
O artigo analisa as políticas de gênero desenvolvidas pela Organização das Nações Unidas a partir da teoria da matriz de dominação, formulada por Patricia Hill Collins. A discussão aborda como gênero, raça, classe e território se articulam na produção das desigualdades sociais e internacionais, observando tanto os avanços promovidos pela ONU quanto os limites estruturais ainda presentes nas políticas globais de igualdade. Além disso, o texto discute a permanência de hierarquias de poder que afetam especialmente mulheres negras, periféricas e pertencentes ao Sul Global.
Autoria
Sabrina Lucena
Referências Bibliográficas
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Nota editorial
Este artigo busca promover uma reflexão crítica sobre os desafios das políticas internacionais de igualdade de gênero, analisando os limites institucionais presentes nas estruturas globais de poder. O conteúdo foi desenvolvido para fins acadêmicos e informativos, com base em debates contemporâneos das Relações Internacionais, do feminismo negro e dos estudos de gênero.




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