As moedas que já existiram no Brasil: De réis a cruzados, a bagunça econômica antes do real
- Geo Expand

- 15 de jun. de 2025
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Atualizado: 16 de jun. de 2025
Introdução
“A moeda é a encarnação visível da confiança social” — a frase do sociólogo alemão Georg Simmel resume o papel crucial que a moeda exerce em qualquer sociedade. No Brasil, essa confiança foi testada inúmeras vezes. A história monetária do país é marcada não apenas por mudanças de cédulas e nomes, mas também por uma instabilidade estrutural que revela muito sobre suas crises políticas, econômicas e sociais. Antes da consolidação do Plano Real, em 1994, o Brasil enfrentou um verdadeiro labirinto monetário, com sucessivas trocas de moedas, cortes de zeros e promessas de estabilidade que, quase sempre, acabavam em frustração. Entender essa trajetória é essencial para compreender o valor simbólico e prático da moeda em um país em constante construção.
Do Brasil colônia ao Império: o longo reinado dos réis
A primeira moeda oficial do Brasil foi o réis, herança direta da dominação portuguesa. Circulou por mais de 400 anos, atravessando o Brasil Colônia, o Império e parte da Primeira República. Em meio à escassez de metais e à ausência de um sistema bancário nacional robusto, era comum a circulação de moedas estrangeiras. Não raro, ocorriam improvisações monetárias: moedas de cobre furadas, cédulas de papel rasgadas e até selos postais eram utilizados como substitutos do dinheiro oficial.
Durante o período imperial, uma prática curiosa era a revalidação artesanal de moedas por meio de carimbos, o que frequentemente gerava confusão entre comerciantes. Além disso, o termo "conto de réis" permanece vivo na linguagem popular, mesmo décadas após a extinção da moeda, como uma metáfora para quantias elevadas de dinheiro.
A longevidade do réis se deve, em parte, ao fato de o país ainda não ter experimentado ciclos inflacionários intensos. Foi apenas no século XX, com o avanço do Estado moderno e o aumento dos gastos públicos, que as pressões sobre a moeda se tornaram mais evidentes.

Primeiras mudanças: do réis ao cruzeiro
Com a intenção de modernizar a economia e construir uma identidade monetária compatível com o nacionalismo da Era Vargas, o governo de Getúlio Vargas implementou, em 1942, a substituição dos réis pelo cruzeiro. O novo nome evocava o Cruzeiro do Sul, constelação presente na bandeira brasileira, reforçando o simbolismo patriótico.
No entanto, mesmo com a nova denominação, os desequilíbrios fiscais persistiram. A inflação começou a se enraizar na rotina nacional, prenunciando as turbulências das décadas seguintes. O acelerado processo de urbanização e industrialização, não acompanhado de políticas econômicas estruturadas, acabou agravando ainda mais esse cenário.

Inflação e a era dos zeros a mais
A partir dos anos 1960, o Brasil mergulhou em um processo inflacionário crônico. Em 1967, o cruzeiro novo foi introduzido com o corte de três zeros em relação ao padrão anterior. Em 1970, o nome cruzeiro foi retomado. Entretanto, o poder de compra da população encolhia velozmente. Cédulas de mil cruzeiros rapidamente se tornavam quase inúteis, e lidar com grandes quantidades de zeros passou a ser parte do cotidiano.
Nos anos 1980, a desvalorização era tamanha que surgiram cédulas de 500 mil cruzeiros. Era comum que crianças colecionassem cédulas antigas, dada a velocidade com que novas versões surgiam. Alguns bancos, sem tempo hábil para imprimir novas notas, aplicavam etiquetas adesivas com valores atualizados sobre cédulas antigas — um retrato da improvisação institucional da época.
Esse período simboliza o colapso de uma das funções essenciais da moeda: servir como unidade de conta. O sociólogo e economista Francisco de Oliveira frequentemente analisava como a inflação brasileira não era apenas uma falha econômica, mas também um fenômeno social que distorcia a percepção do valor e do tempo entre os cidadãos.
Anos 1980: os cruzados e o auge da instabilidade
Com o fim da ditadura militar e o processo de redemocratização, surgiram novas esperanças de reorganização econômica. Em 1986, foi lançado o Plano Cruzado, que introduziu o cruzado, eliminando novamente três zeros e congelando preços. Inicialmente, a medida foi bem recebida, gerando otimismo. No entanto, os efeitos colaterais não demoraram a aparecer: desabastecimento, escassez nos supermercados e o retorno da inflação.
Em seguida, vieram o cruzado novo (1989), o cruzeiro (1990) e, por fim, o cruzeiro real (1993), todos marcados por promessas frustradas e soluções paliativas. As cédulas tornaram-se praticamente descartáveis, e o conceito de planejamento de médio ou longo prazo foi sendo erodido.
Segundo a economista e historiadora Maria da Conceição Tavares, “O Brasil sofreu de um processo inflacionário patológico, cuja causa estava no desequilíbrio entre o Estado e a sociedade: gastava-se mais do que se arrecadava, e ninguém confiava no dinheiro que carregava no bolso”.
O Plano Real: um ponto de virada
Diante de tantos fracassos, em 1994 o governo de Itamar Franco, com Fernando Henrique Cardoso à frente do Ministério da Fazenda, lançou o Plano Real. A criação prévia da URV (Unidade Real de Valor) foi essencial: um indexador temporário que permitiu a transição dos preços de forma gradual e compreensível. Pela primeira vez em muitos anos, os brasileiros viram os preços permanecerem estáveis por semanas nas prateleiras.
O impacto foi profundo. O Plano Real não apenas controlou a inflação, como também iniciou uma série de reformas institucionais, como a futura Lei de Responsabilidade Fiscal. Houve maior previsibilidade nas políticas econômicas e a confiança nas instituições cresceu. As famílias voltaram a fazer planos, os investimentos se expandiram e o consumo se tornou menos impulsivo e mais planejado.
Mais do que um simples programa econômico, o Real consolidou uma nova relação entre o Estado, o cidadão e o sistema financeiro. O fortalecimento do Banco Central e a valorização da política monetária coerente reforçaram a credibilidade institucional — um legado que permanece relevante até hoje.

Legado: o valor da confiança na moeda
O Real alterou profundamente o modo como os brasileiros se relacionam com o dinheiro. O que antes era uma experiência cotidiana de perda de poder de compra, hoje é uma convivência com relativa estabilidade. Isso criou espaço para o crescimento da educação financeira, para o desenvolvimento de um mercado de crédito mais sólido e para uma maior confiança no próprio futuro.
Embora o país ainda enfrente desafios, como juros elevados ou episódios pontuais de inflação, o Real segue como um dos pilares da estabilidade brasileira. Seu legado ultrapassa os aspectos econômicos, estendendo-se ao campo político e social: demonstrou que a estabilidade se conquista com responsabilidade, planejamento e compromisso institucional.
A título de comparação, vale lembrar que países como Argentina ou Venezuela, que passaram por processos inflacionários similares, ainda não conseguiram consolidar uma moeda estável — evidenciando o caráter notável, e nada trivial, da conquista brasileira.
Conclusão: um país em busca de estabilidade
A trajetória monetária do Brasil é, em última instância, o retrato de suas escolhas políticas, sociais e econômicas. Da improvisação do período colonial às tentativas desesperadas de controle nos anos 1980, cada moeda carrega consigo uma narrativa de tentativa, erro e aprendizado. O Real, apesar dos percalços, representa uma ruptura com esse passado instável.
Mais do que um instrumento econômico, a moeda é um espelho da confiança coletiva. Sua força não reside apenas em políticas fiscais ou decisões técnicas, mas na credibilidade construída ao longo do tempo, na capacidade de inspirar segurança e no compromisso contínuo com a estabilidade. O Real não foi apenas uma mudança de nome ou de cédula: foi, sobretudo, a consolidação de uma nova mentalidade — aquela que entende que, sem estabilidade, não há progresso possível.
Autora: Gabrielle Lima Alves
Referências:
ABREU, Marcelo de Paiva. A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana, 1889–1989. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
CARNEIRO, Ricardo. A economia brasileira em marcha forçada. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
GIAMBIAGI, Fábio; ALÉM, Ana Cláudia. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
OLIVEIRA, Francisco de. Economia brasileira: crítica à razão dualista. São Paulo: Boitempo, 2003.
SIMMEL, Georg. Filosofia do Dinheiro. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico das moedas brasileiras. Disponível em: https://www.bcb.gov.br (Acesso em: junho de 2025).




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