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O papel do Sul Global na reconfiguração da ordem internacional: entre dependência e protagonismo

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • 22 de abr.
  • 6 min de leitura

Como heranças históricas, transformações geopolíticas e a ascensão de potências emergentes reposicionam o Sul Global no centro das disputas e negociações da ordem internacional contemporânea.







Nas primeiras décadas do século XXI, a ordem internacional tem passado por transformações profundas que desafiam estruturas consolidadas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O sistema internacional, historicamente marcado pela centralidade das potências do Norte Global, especialmente os Estados Unidos e países da Europa Ocidental, enfrenta hoje pressões decorrentes de mudanças econômicas, políticas e tecnológicas. Nesse cenário, o chamado Sul Global emerge como um conjunto heterogêneo de países que, embora historicamente associados à periferia do sistema internacional, passam a desempenhar um papel cada vez mais relevante na redefinição das dinâmicas globais.


O conceito de Sul Global não se limita a uma localização geográfica. Ele engloba países da América Latina, da África, da Ásia e do Oriente Médio que compartilham experiências históricas de colonização, subdesenvolvimento e desigualdade na economia mundial. Ao mesmo tempo, trata-se de um grupo extremamente diverso, que inclui desde economias emergentes com grande capacidade de influência, como Brasil, Índia e África do Sul, até países com altos níveis de vulnerabilidade econômica e política.


Sul global em destaque. Fonte - Sight magazine
Sul global em destaque. Fonte - Sight magazine


Heranças históricas e estruturas de dependência


Para entender a posição atual do Sul Global, é fundamental considerar as raízes históricas da desigualdade internacional. A formação do sistema econômico global moderno está profundamente ligada ao colonialismo europeu e à expansão do capitalismo a partir do século XVI. Nesse processo, regiões que hoje compõem o Sul Global foram integradas à economia mundial de forma subordinada, como fornecedoras de matérias-primas e mão de obra barata.


Essa dinâmica foi amplamente analisada por correntes teóricas como a Teoria da Dependência, que ganhou destaque na América Latina a partir da segunda metade do século XX. Autores dessa tradição argumentam que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas sim uma condição estrutural produzida pela própria lógica do sistema capitalista global.


Mesmo após os processos de independência política no século XX, muitos países do Sul Global continuaram inseridos em relações econômicas assimétricas. A dependência de exportações de commodities, a vulnerabilidade a flutuações de mercado e a necessidade de financiamento externo limitaram a autonomia desses países na formulação de políticas econômicas e no exercício de sua soberania.


Instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial também desempenharam um papel importante nesse contexto. Programas de ajuste estrutural implementados nas décadas de 1980 e 1990 frequentemente impuseram políticas de austeridade, liberalização econômica e privatizações, muitas vezes com impactos sociais significativos.



A ascensão das potências emergentes


Apesar dessas limitações estruturais, o início do século XXI foi marcado pela ascensão de várias economias emergentes do Sul Global. Países como China, Índia e Brasil experimentaram períodos de crescimento econômico acelerado, ampliando sua participação no comércio internacional e aumentando sua influência política.


A ascensão da China é particularmente significativa. Nas últimas décadas, o país tornou-se a segunda maior economia do mundo e um ator central em cadeias globais de produção. Além disso, iniciativas como a Belt and Road Initiative (Nova Rota da Seda) ampliaram a presença chinesa em diversas regiões do Sul Global, por meio de investimentos em infraestrutura e cooperação econômica.


Esse processo contribuiu para o fortalecimento de coalizões políticas entre países do Sul Global, como o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O bloco busca ampliar a cooperação econômica e política entre seus membros, além de promover reformas em instituições internacionais consideradas desproporcionais em relação à distribuição atual de poder global.


A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), vinculado ao BRICS, é um exemplo concreto desse esforço de construção de alternativas institucionais. A instituição tem como objetivo financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, oferecendo uma alternativa às instituições financeiras tradicionais dominadas por países do Norte Global.


Países do BRICS. Fonte - Sputnik / Grigory Sysoev
Países do BRICS. Fonte - Sputnik / Grigory Sysoev


Multipolaridade e disputas geopolíticas


A crescente relevância do Sul Global está diretamente ligada à transição de uma ordem internacional unipolar, dominada pelos Estados Unidos após o fim da Guerra Fria, para uma configuração mais multipolar. Nesse novo cenário, diferentes centros de poder coexistem e disputam influência em diversas regiões do mundo.


Países do Sul Global têm desempenhado um papel estratégico nessa reconfiguração, frequentemente adotando posições pragmáticas em relação às grandes potências. Em vez de alinhar-se automaticamente a um bloco específico, muitos desses países buscam diversificar suas parcerias econômicas e políticas, maximizando seus interesses nacionais.


Esse comportamento pode ser observado, por exemplo, nas relações diplomáticas de países como Brasil e Índia, que mantêm vínculos tanto com potências ocidentais quanto com países como China e Rússia. Essa estratégia reflete uma tentativa de ampliar a autonomia e evitar dependência excessiva de qualquer ator específico.


Ao mesmo tempo, o Sul Global também se tornou um espaço central de disputa geopolítica. Investimentos em infraestrutura, acordos comerciais e cooperação militar são frequentemente utilizados por grandes potências como instrumentos de influência. Nesse contexto, a capacidade dos países do Sul Global de negociar condições favoráveis torna-se um elemento crucial de seu protagonismo internacional.



Desafios internos e limites do protagonismo


Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, o protagonismo do Sul Global enfrenta importantes limitações. Muitos países ainda lidam com desafios internos significativos, incluindo desigualdade social, instabilidade política, corrupção e fragilidade institucional.


Além disso, a heterogeneidade do Sul Global dificulta a construção de uma agenda comum. Interesses divergentes entre países podem limitar a eficácia de coalizões políticas e econômicas. Por exemplo, disputas comerciais, diferenças ideológicas e assimetrias de poder dentro de grupos como o BRICS podem dificultar a coordenação de ações conjuntas.


Outro desafio importante diz respeito à inserção desses países em cadeias globais de valor. Embora alguns tenham avançado na industrialização e na inovação tecnológica, muitos ainda dependem da exportação de produtos primários, o que os torna vulneráveis a oscilações de preços no mercado internacional.


Além disso, questões globais como mudanças climáticas, segurança alimentar e transição energética colocam novos desafios para o desenvolvimento do Sul Global. Esses países frequentemente são os mais afetados por crises ambientais, apesar de terem contribuído menos historicamente para sua origem.



O Sul Global como agente de transformação


Apesar desses desafios, o Sul Global tem demonstrado crescente capacidade de atuação como agente de transformação na ordem internacional. Em fóruns multilaterais, países dessas regiões têm defendido reformas em instituições globais, maior representatividade e políticas mais equitativas.


A atuação conjunta em temas como comércio internacional, mudanças climáticas e governança global evidencia uma busca por maior equilíbrio nas relações internacionais. Iniciativas de cooperação Sul-Sul também têm ganhado relevância, promovendo intercâmbio de conhecimento, tecnologia e experiências de desenvolvimento entre países com desafios semelhantes.


Além disso, o crescimento econômico e demográfico de várias regiões do Sul Global amplia seu peso no cenário internacional. A África, por exemplo, possui uma das populações mais jovens do mundo, o que pode representar um importante fator de dinamismo econômico nas próximas décadas.


Nesse contexto, o protagonismo do Sul Global não se limita à contestação da ordem existente, mas também envolve a construção de alternativas e novos modelos de cooperação internacional.



Conclusão


O papel do Sul Global na reconfiguração da ordem internacional é marcado por uma tensão constante entre dependência e protagonismo. Se, por um lado, persistem estruturas históricas de desigualdade e limitações internas, por outro, observa-se uma crescente capacidade de influência e articulação por parte desses países.


A transição para uma ordem internacional mais multipolar abre espaço para que o Sul Global amplie sua participação na definição de regras e instituições globais. No entanto, esse processo não é linear nem garantido. Ele depende da capacidade desses países de superar desafios internos, fortalecer suas instituições e construir alianças estratégicas.


Mais do que um bloco homogêneo, o Sul Global deve ser entendido como um campo dinâmico de disputas, no qual diferentes atores buscam afirmar seus interesses em um cenário internacional em transformação. Portanto, tudo isso se torna essencial para analisar os rumos da política global nas próximas décadas e os possíveis caminhos para a construção de uma ordem internacional mais equilibrada e inclusiva.


Michel Temer (dir.) e os outros presidentes do Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, posam de mãos dadas durante o 10º encontro do grupo de economias emergentes em Joanesburgo, na África do Sul. Foto - Mike Hutchings/Pool via AFP
Michel Temer (dir.) e os outros presidentes do Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, posam de mãos dadas durante o 10º encontro do grupo de economias emergentes em Joanesburgo, na África do Sul. Foto - Mike Hutchings/Pool via AFP










Sobre o artigo

Este artigo analisa o papel do Sul Global na reconfiguração da ordem internacional, destacando a tensão entre dependência histórica e protagonismo emergente. A reflexão aborda a ascensão de potências emergentes, a transição para uma ordem multipolar e os desafios estruturais que ainda limitam a atuação desses países no cenário global.

Autoria

Raul Holanda


Nota editorial

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor.

 
 
 

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