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Israel e Palestina: vozes, narrativa e o desafio para a paz

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • 8 de out. de 2025
  • 7 min de leitura

Introdução

O conflito entre Israel e Palestina é um dos mais complexos da história contemporânea, marcado por disputas territoriais, religiosas e políticas que impactam milhões de vidas até hoje. Mas ele é, ao mesmo tempo, mais antigo do que se imagina. Sua expansão, iniciada no século XX, está fortemente ligada à expressão de dois movimentos de autodeterminação conflitantes, o sionismo e o nacionalismo palestino, disputando o mesmo território. Essa realidade, porém, ganha profundidade visceral quando encarada pelo ponto de vista palestino, onde não são fronteiras que estão em disputa, mas vidas.


Em Cartas ao meu vizinho palestino, de Yossi Klein Halevi, jornalista israelense, entrega uma série de cartas líricas e carregadas de emoção, nas quais tenta desfazer o nó ideológico e emocional que separa as histórias palestinas e israelenses. Halevi se empenha em narrar sua fé, memória e dor como judeu em Israel, mas, sobretudo, em escutar as cartas que surgiram como resposta. Vozes palestinas que, com indignação, empatia ou ressentimento, expõem uma verdade fundamental: a ocupação não é só estatística, é existência tolhida, dignidade negada e futuro incerto.



Halevi interpreta sua narrativa pessoal com uma reflexão: “Como você consegue, se é que consegue, manter uma vida normal? Como palestino, lhe são negados direitos básicos.” Essa frase, dirigida ao seu vizinho palestino que vive entre uma divisão de uma nação que separa identidade e cidadania, demonstra de maneira profunda que viver sob um conflito não é apenas enfrentar obstáculos, é viver em uma realidade onde o direito de existir é questionado.


Ao reconhecer essa assimetria, o livro não busca uma simetria moral entre ocupador e ocupado, mas reconhece na dor uma plataforma possível para um diálogo urgente. As cartas irritadas e empáticas são fragmentos humanos que revelam como ouvir o outro é o primeiro passo para construir a possibilidade da paz.


Essa introdução não é apenas um convite, mas um lembrete consciente de que olhar para esse conflito não deve ser apenas como abstração política, mas como uma realidade humana, vivida na pele, respirada na angústia diária, narrada em cartas que dialogam muro a muro, clamando por reconhecimento mútuo.


Raízes de uma terra dividida

Para compreender o conflito entre Israel e Palestina, é essencial voltar às raízes históricas. Durante séculos, a Palestina histórica foi habitada majoritariamente por árabes, muçulmanos e cristãos, convivendo também com comunidades judaicas locais. Essa proporção começou a mudar no final do século XIX, com o fortalecimento do movimento sionista, um termo utilizado para se referir ao nacionalismo judaico, que historicamente propõe o retorno dos judeus à Palestina como forma de criar um lar nacional seguro, em parte como resposta à perseguição e ao antissemitismo na Europa.


Com o fim do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, a região passou ao controle britânico. A Declaração Balfour de 1917, na qual o Reino Unido apoiava oficialmente a criação de um lar nacional judeu, trouxe, porém, uma contradição na Palestina. Ao mesmo tempo em que prometia esse lar ao povo judeu, ignorava os direitos políticos da população árabe já existente no território. Esse momento foi o estopim para um sentimento profundo de traição entre os palestinos, que viram seu direito de autodeterminação sendo silenciado.



As décadas seguintes foram marcadas por uma crescente tensão. A imigração judaica à Palestina aumentou especialmente após a ascensão do nazismo e o Holocausto, que levaram milhares de judeus a buscar refúgio na região. Para os judeus, era a concretização de um sonho histórico. Para os palestinos, significava perder progressivamente terras, espaço e, sobretudo, reconhecimento.


Em 1947, a ONU propôs a partilha da Palestina em dois Estados: um judeu e um árabe, com Jerusalém sob administração internacional. Os líderes judeus aceitaram o plano, mas os árabes o rejeitaram, considerando-o injusto, pois, embora formassem a maioria da população, receberam menos da metade do território. A guerra que se seguiu, em 1948, culminou na criação do Estado de Israel e no que os palestinos chamam de Nakba, ou catástrofe. Mais de 700 mil palestinos foram expulsos ou fugiram de suas casas, tornando-se refugiados em países vizinhos ou em campos na Cisjordânia e em Gaza.



Esse episódio é um dos traumas centrais da memória palestina: não apenas a perda da terra, mas a perda da casa, da identidade e da segurança. Desde então, a história tem sido marcada por guerras, ocupações e promessas de paz que nunca se concretizaram.


Gaza e Cisjordânia: sobrevivendo entre muros e restrições

Viver na Palestina hoje significa experimentar o mundo através de barreiras físicas e invisíveis. Muros, postos de controle, bloqueios e restrições de movimento moldam a rotina de milhões de pessoas, transformando tarefas simples, como ir à escola, trabalhar ou visitar parentes, em desafios diários. Para muitas crianças em Gaza e na Cisjordânia, o mundo exterior é limitado a algumas ruas e áreas monitoradas, onde a liberdade de brincar ou caminhar é regulada por cercas e militares.



O bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, intensificado nos últimos anos, criou uma crise humanitária sem precedentes. A escassez de alimentos, água potável e remédios transformou a sobrevivência em um ato de resistência. Crianças crescem com fome, sem acesso a tratamentos adequados, e famílias enfrentam diariamente a angústia de não saber se terão energia, água ou alimentos suficientes para o dia seguinte. Segundo dados recentes da ONU e do IPC, centenas de milhares vivem em situação de fome extrema, e milhares de crianças sofrem de desnutrição grave, um paradoxo cruel em uma região que historicamente já foi berço de civilizações e de rica diversidade cultural.


Além da escassez material, existe a escassez simbólica: a impossibilidade de planejar o futuro, a limitação de sonhos e a constante exposição à violência e à destruição. O muro que separa comunidades e cidades não é apenas concreto, ele é a metáfora de uma vida restrita, de direitos negados e de um futuro interrompido. E ainda assim, a resistência persiste: famílias que se mantêm unidas, crianças que estudam em condições precárias, artistas e ativistas que usam a voz e a arte para não deixar o mundo esquecer que a Palestina existe, respira e resiste.


Resistir é existir: cultura e identidade palestina

Em meio a cercas, bloqueios e destruição, a Palestina sobrevive não apenas na geografia, mas na memória, na cultura e na resistência cotidiana de seu povo. A resistência palestina não se resume a confrontos armados; ela pulsa nas histórias familiares, na música, na literatura, na arte e na educação. Cada criança que estuda apesar das escolas danificadas, cada artista que cria apesar da escassez de recursos, cada comunidade que mantém tradições e celebrações culturais é um ato de afirmação de existência.



A literatura, como Cartas ao meu vizinho palestino, e projetos de arte comunitária revelam a força simbólica da vida palestina. Eles dão voz a uma população que muitas vezes é reduzida a estatísticas em relatórios internacionais. Cada narrativa, cada carta, cada desenho ou canção é uma ponte entre gerações, lembrando que, mesmo sob opressão, a identidade e a dignidade persistem.


O dia a dia palestino é marcado pelo paradoxo: enquanto a ocupação limita movimentos, restringe oportunidades e expõe crianças à fome e ao medo, a criatividade e a solidariedade florescem nos espaços que ainda podem ser chamados de lar. A resistência se manifesta também na luta por direitos básicos, como acesso à educação, à saúde e à liberdade de ir e vir. Cada gesto de resistência, como ensinar uma criança a ler, plantar uma horta comunitária ou preservar uma vila histórica, é um ato de coragem silenciosa, um lembrete de que a Palestina não é apenas terra, mas povo, memória e futuro.


Rumo à esperança: perspectivas de paz e reconstrução

O futuro da Palestina e de Israel é incerto, mas depende acima de tudo da capacidade de diálogo, empatia e reconhecimento mútuo. O conflito não é apenas uma disputa territorial ou política, é uma história de vidas interrompidas, memórias desfeitas e sonhos negados. Qualquer solução duradoura precisa colocar o ser humano no centro, garantindo direitos básicos, segurança e dignidade para todos.



Organizações internacionais, movimentos de base e vozes individuais têm buscado caminhos para construir pontes, mesmo diante de muros físicos e emocionais. Projetos educacionais, culturais e humanitários mostram que é possível resistir sem violência, ouvir o outro sem reduzir suas experiências a estatísticas e criar espaços onde a vida e a memória de palestinos e israelenses possam coexistir.


A paz não é apenas a ausência de conflito, é a presença de justiça, reconhecimento e oportunidades iguais. Para que a coexistência se torne realidade, é necessário desafiar o ciclo de ódio e violência, reconhecer os erros do passado e construir novas narrativas que incluam, respeitem e valorizem a dignidade de cada pessoa. Olhar para essas perspectivas é compreender que o futuro do conflito dependerá da capacidade de enxergar o outro não como inimigo, mas como ser humano, um passo essencial para que Gaza e a Cisjordânia possam um dia respirar juntos, sem medo, sem fome e sem muros que dividem vidas e sonhos.


Palestina: vidas, muros e resistência

O conflito entre Israel e Palestina é mais do que uma disputa territorial; é uma narrativa de vidas interrompidas, memórias negadas e futuros adiados. Ao longo deste artigo, vimos que a Palestina não é apenas um território: é um povo que resiste, que sonha e que persiste apesar de muros, bloqueios e crises humanitárias.


Compreender a perspectiva palestina é reconhecer o paradoxo histórico: um povo que, vítima de perseguições por séculos, viu-se agora na posição de defender sua sobrevivência enquanto outro se estabelece, muitas vezes à custa de sua terra e dignidade. As crianças que crescem com fome, as famílias que perdem suas casas, as comunidades que lutam para manter vivas suas tradições, tudo isso é uma evidência da urgência de empatia e ação.


A Palestina nos lembra que resistir é existir. Resistir é ensinar, plantar, criar arte, preservar memória e lutar por direitos básicos. É afirmar que, mesmo diante da opressão, a dignidade não pode ser apagada. E, acima de tudo, é um chamado à consciência de todos nós: ouvir, compreender e amplificar essas vozes é um passo essencial para transformar dor em reconhecimento e invisibilidade em justiça.


Este artigo não busca apenas informar, mas sensibilizar: compreender a realidade palestina é entender que a paz duradoura só será possível quando a dignidade, os direitos e a liberdade de cada palestino forem plenamente respeitados. Resistir é existir e a Palestina insiste em existir.


Referências Bibliográficas


1. Yossi Klein Halevi – Cartas ao meu vizinho palestino (2022)


Fonte: Leia SP


2. Declaração Balfour (1917): https://www.bbc.com/portuguese/geral-41842505












Escrito por: Sabrina Lima de Lucena


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