Primavera Árabe: causas, consequências, e o que resta mais de 10 anos depois
- Geo Expand

- 17 de set. de 2025
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Introdução
No decorrer do ano de 2011, na Tunísia, a história lamentável de Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante de frutas que teve seu negócio e seus pertences completamente confiscados pelo governo, culminou numa série de protestos e manifestações pela insatisfação com um governo autoritário e opressor - governo este que prevalece até hoje no país.
Entretanto, as camadas populares que se opuseram naquela época refletiram suas ações em outras nações, originando do que chama-se Primavera Árabe. Sendo assim, mesmo tendo ocorrido há mais de 10 anos, torna-se imprescindível trazer a relevância do tema na atualidade, pois reflete a luta de classes pela garantia de seus direitos civis e a liberdade de expressão dos cidadãos.
O estopim para o início do período- Primavera Árabe
O confisco dos pertences e o negócio de Mohamed Bouazizi em dezembro de 2010 na Tunísia, se deu pela falta de autorização do vendedor ambulante para vender no local onde era necessária.
Como forma de protesto, Bouazizi foi à sede do governo local para recuperar seus pertences, mas foi ignorado. Depois de anos sem emprego, Bouazizi se suicidou ateando fogo em si mesmo na frente do prédio do governo local.
Com a eficiência do uso da internet e de redes sociais, a notícia se repercutiu rapidamente, o que foi o estopim para manifestações contra o desemprego e a corrupção. Com as constantes revoltas do povo, o presidente autocrata da época, Ben Ali foi pressionado a tomar medidas.
Protestantes foram mortos, mesmo com o governo negando, e em menos de um mês após o ocorrido, o presidente deixou o país e foi para Arábia Saudita. Essa renúncia marcou o início do período da Primavera Árabe.
Primavera Egito- A expansão das ideias para outras monarquias
Neste contexto, esse movimento se disseminou pelas nações árabes, cuja população também estava em uma constante luta pela democracia. Principalmente no Egito, a taxa de desemprego atingiu níveis extremos, fazendo com que ruas fossem tomadas pela população pedindo mudanças e melhoras econômicas, inspirados pelas ideias da rebelião anterior.
Portanto, semelhantemente a Tunísia, ocasionou-se uma série de protestos que foram respondidos e reprimidos com violência, várias pessoas sendo mortas por militares e cidadãos a favor da monarquia.

Nessa época, o Egito estava sob o governo de Hosni Mubarak, um autocrata que também atingido pela rebelião violenta dos protestantes na nação, renunciou ao seu cargo por conta dos frequentes manifestos.
Primavera Marrocos e Jordânia- mudança de estratégia
Com receio de que as ideias da Primavera Árabe se propaguem, o regime do rei marroquino Mohammed VI mudou a estratégia. Nesse período, o comportamento dos manifestantes dependia do grau de liberdade do autocrata do país.
O rei permitiu que fossem feitas manifestações de forma pacífica, e foram formuladas novas constituições, onde o rei daria mais poder ao parlamento, mais autonomia política nas regiões do país, e liberdade de expressão ao povo. Porém, como nenhum desses atos políticos foram realmente concretizados, houveram mais insatisfações nas ruas.
Ademais, na Jordânia não foi muito diferente. Em janeiro de 2011, inspirados pelos tunisianos, os jordanianos foram às ruas protestar contra o desemprego, corrupção e falta de liberdade.
O rei Abdullah, agindo diferente dos outros monarcas, abriu concessões em meio às manifestações, evitando uma revolta maior, e conseguiu sobreviver ao período mais desafiador da Primavera Árabe.
Primavera Kuwait e Arábia Saudita
Outros regimes monárquicos como o Kuwait e a Arábia Saudita encararam a situação lentamente. No Kuwait, no mês de fevereiro de 2011, às manifestações pelo combate à corrupção foram se intensificando, e em novembro daquele ano, várias pessoas foram presas, incluindo parlamentares.
Também, na Arábia Saudita, os protestos foram mais direcionados a melhorias econômicas, principalmente da população xiita. Porém, houve uma maior concentração da rebelião na chamada Rotatória Pérola, na capital, Manama. No decorrer dos manifestos, o lugar foi tomado pelo povo e por militares, resultando em dezenas de mortos e a destruição da rotatória.
Primavera Líbia- Descontrole e caos
A Líbia, governada pelo coronel Muammar Khadafi, sofreu consequências mais graves em relação à Primavera Árabe. Em fevereiro de 2011, no decorrer dos impactos das ideias, houveram diversas manifestações que foram reprimidas com violência.
A cidade de Benghazi protagonizou a concentração de protestos, e Khadafi planejou bombardear a cidade para dar um fim na revolução. Contudo, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) interviu, bloqueando as forças armadas da Líbia, bombardeando qualquer tanque libiano que se dirigisse à cidade.
Iniciou-se uma guerra civil entre o regime de Khadafi (lado leste do país) e os rebeldes (parte oeste do país)
Todavia, apesar da intervenção da ONU, os rebeldes de Benghazi não eram mais os defendidos, e sim, os que atacam. Em agosto de 2011, os soldados rebeldes tomaram o palácio presidencial de Khadafi, mas ele conseguiu fugir.
Logo em outubro de 2011, ele e um grupo de soldados tentaram escapar, porém os rebeldes os capturaram. Khadafi foi espancado e morto a tiros, dando fim ao seu regime ditador. Porém, iniciou-se uma série de conflitos para a disputa do poder no país.
A divisão do território libiano
O caos que já tinha se tornado rotina permitiu o avanço dos islâmicos para assumir o poder do país. Um grupo chamado Ansar al-Sharia, formado em 2012, expandiu as ideias e leis islâmicas, agindo com total liberdade para transformar o país. Isso fez com que a Líbia se tornasse um campo de batalha, enfrentando guerras civis por anos.
Khalifa Haftar assumiu o poder no leste na Líbia, enquanto a outra parte era território islâmico. Recentemente, em 2020, os dois lados assinaram um cessar fogo para uma futura resolução dessa separação do país.
Primavera Síria- Guerra civil
O presidente da Síria, Bashar al-Assad, deixou bem claro que lutaria até a morte para manter seu poder. Ele era conhecido como um dos mais repressivos, que respondia com extrema violência (tortura, prisões e assassinatos).
Em março de 2011, na cidade de Deraa, começaram-se as manifestações pela insatisfação com o governo. Foram respondidos com bombardeios e confisco de elementos essenciais como água e eletricidade.
Ao longo do ano, as repressões de Assad foram piorando. E ao mesmo tempo, as pressões internacionais para que a violência diminuísse também se intensificaram. Tentativas de ataques aos militares do governo resultaram em centenas de mortes.
Os rebeldes revolucionários foram ganhando força, juntamente com o número de conflitos e mortes no país, o que concretizou uma guerra civil. Na época, em 2012, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama avisou que se nas guerras fossem usadas armas químicas, haveria uma intervenção americana.
Em 2013, os rebeldes relataram um ataque químico que deixou mais de mil mortos. Os Estados Unidos consideraram a ideia de intervir, porém, sem o apoio dos britânicos (Reino Unido), acabou desistindo, o que serviu de brecha para que o regime sírio ganhasse forças.

Um dos maiores aliados da Síria para a manutenção do poder de Bashar al-Assad foi a Rússia. Isso contribuiu para que depois de anos, a guerra e os conflitos seguissem acontecendo.
O que resta após mais de 10 anos
Dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos apontam que de 2011 a 2020, a guerra civil na Síria deixou quase meio milhão de mortos. Territórios foram arrasados e destruídos.
Durante uma década, através do ato de Mohamed Bouazizi na Tunísia, se desencadeou um dos maiores e mais intrigantes conflitos que marcaram a história das nações árabes. Gritos desesperados por liberdade de expressão, mudança política em meio a regimes tão violentos, acabaram tendo consequências distintas em cada país Árabe.
Na Tunísia, segue-se tendo avanços democráticos, assim como no Marrocos, no Kuwait, Jordânia e na Arábia Saudita. Porém, é notório que ainda nos dias de hoje, essas regiões colhem frutos ruins. São instáveis economicamente e politicamente, com governos ainda autoritários, crises humanitárias e refugiados.
Contudo, um legado de resistência foi deixado pelo período da Primavera Árabe.




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