Quando pessoas viram recurso: a “monocultura” do capital humano e seus impactos na África
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Muito além dos estereótipos: a diversidade africana, os impactos do tráfico transatlântico e a necessidade de superar a narrativa da "história única".
Por Laura Castro
A visão sobre a África
A África é geralmente referida como um país homogêneo, do qual frases como “eu tenho um amigo africano”, “existe muita pobreza na África” são recorrentes. Embora a África contabilize a maior quantidade de países dentre os continentes, com um total de 54 países distintos e seu território ser maior do que a soma de China, Índia, Estados Unidos e grande parte da Europa, mas ainda assim, não fazemos generalização desses países citados anteriormente, ainda menos de seus continentes.
Portanto, essa generalização é incoerente, já que a África apresenta uma variedade entre países, povos, cultura, gastronomia, linguagem e até mesmo na história do comércio de escravos no Atlântico, alguns especialistas afirmam que até mesmo os problemas africanos não podem ser tomados como verdade para todos os povos do continente, uma vez que muitos relacionam a África no geral com: fome, miséria, guerras, doenças, instabilidade política e social, corrupção e pobreza.

Conforme o relato de Djamila Ribeiro no programa Provoca, em 2022:
"…fui fazer uma fala na Universidade Federal do Pará e eu tava lá me achando porque o norte, norte, norte. Tô dividindo a mesa com uma pesquisadora lá de Belém..."
"E ela me interrompeu, ela falou: 'Djamila, você fala muito o norte. O norte, o norte, e eu queria saber de que parte do norte você tá falando. De Belém, de Manaus, de Amapá?'"
"Porque quando eu pergunto de onde você vem, você diz São Paulo; você não diz sudeste. E você diz distante... eu fui muito pega de surpresa, com a cara queimando."
"Eu poderia dizer que eu não tenho preconceito regional, 'minha tataravó era do norte', mas eu olhei pra ela e falei: você tem razão, realmente eu tenho que estudar mais, eu preciso escutar mais."
O desenvolvimento dos países da África é distinto, pois possuem histórias diferentes, nem todos os países foram vítimas do “tráfico negreiro” ou da colonização igualmente, por mais que no geral tenham sido reféns de países ocidentais, mas é necessário a compreensão de que a região costeira foi a mais atingida, em vista das navegações e feitorias construídas.
Além disso, a visão das fronteiras da África serem artificiais, por terem sido criadas pelos colonizadores, de forma que grupos inimigos convivessem entre si, resultando em guerras e impossibilidade de desenvolvimento revela uma simplificação do assunto, pois é evidente que isso revela uma visão violenta desses povos, mas etnias diferentes coexistiram pacificamente, como o Império de Gana e Mali na Idade Média, sem contar que fronteiras no geral são geralmente fruto de acordos políticos e tratados, nem sempre respeitam separações da natureza ou culturais, assim, as guerras existem, mas são complexas, englobam diversos aspectos, não reduzidas a confrontos étnicos ou tribais devido às fronteiras.
Com isso, os países da África não podem ser uniformizados, resumidos à pobreza, todos eles possuem suas especificações e individualidades e muitos países africanos têm realidades sociais e econômicas similares ou superiores à do Brasil, um exemplo é a República de Maurício, que possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) melhor que o do Brasil e ocupa uma posição mais elevada também em países mais democráticos do mundo, ou a Botsuana que tem índices melhores que Brasil, Itália e Bélgica em estabilidade democrática, ou o Cabo Verde; Ruanda foi a primeira a implementar uma rede nacional 4G completa, após se reerguer de um genocídio contra sua população há apenas 30 anos, incluindo também uma cobertura de drones para entrega de medicamentos em áreas remotas, Quênia; Marrocos possui a maior usina solar do mundo e pretende exportar energia limpa para a Europa, África do Sul com seu investimento de R$21 bilhões em uma usina para produzir hidrogênio verde; Costa do Marfim distribuiu as primeiras doses de uma nova vacina contra a malária; Tunísia possui expectativa de vida superior a 76 anos à algum tempo; Etiópia construiu sua primeira usina de transformação de lixo em energia; cada um possuí características específicas, por mais que hajam situações de miséria em partes de certos países do continente africano, esse resumo e simplificação ao trágico de todo o continente é errôneo e indigno.
Como aponta a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra “O perigo de uma história única”, na conferência TED em 2009: “Muitas histórias importam. As histórias já foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada”.
Comércio de escravizados no atlântico
Ademais, a prática de comércio de escravizados era intensa em determinados países e deixou resquícios através do contato estabelecido com os europeus tanto na desigualdade, com um subdesenvolvimento, quanto na parte cultural pela implementação da cultura europeia forçadamente, com a perda de línguas, costumes ancestrais e marginalização da cultura africana.
Outrossim, os países que gerenciavam o “tráfico negreiro” (entre aspas, pois tráfico se refere a algo ilegal e na época era legalizado) eram principalmente Portugal, Inglaterra, França, Espanha, Países Baixos, Dinamarca e infelizmente também o Brasil, com a maior quantidade de pessoas africanas escravizadas recebidas nas Américas durante toda a escravidão (entre os séculos 16 e 19 contabilizam aproximadamente quatro milhões de homens, mulheres e crianças, o que equivale a mais de um terço do número de escravizados comercializados no total), que abrange aproximadamente o período de 1501 até 1867 na teoria, porém na prática após a abolição da escravatura, não houveram leis para buscar garantir de verdade o direito da população negra anteriormente escravizada, dessa forma perduram desigualdades estruturais até os dias atuais.

Vale ressaltar que os dados se referem aos escravizados comercializados, mas não ao número total de escravizados, já que eles tiveram filhos durante as décadas de escravidão. Os países em que chefes, tribais, reis e sobas (líderes de tribos angolanas) capturavam prisioneiros, majoritariamente de guerras locais para vendê-los a comerciantes europeus são determinados por fronteiras diferentes das atuais, pois a demarcação atual foi feita após a Conferência de Berlim de 1885, mas no geral entre o século XVI e XIX Benin era o último lugar que os escravizados passavam antes de ir ao Brasil, especialmente no porto de Ouidah, que foi o segundo maior ponto de embarque, ficando atrás somente de Luanda, em Angola e na época Benin abrangia o Reino de Daomé que era uma grande potência escravista do transatlântico e mais tarde a Nigéria passou a participar fortemente. Resumo da variação de acordo com os anos:
Século XVI: atual Guiné, conhecida na época como Senegâmbia, incluindo também partes de Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau e Mauritânia
Século XVII: reinos do Congo e de Angola
Séculos XVIII e XIX: Costa da Mina, Golfo de Benin, que abrange atualmente Gana, Benin, Togo, Nigéria, Níger e partes do Burkina Faso.

Atualmente, o porto de Ouidah foi transformado em memorial e é conhecido como “Porta do Não Retorno”. Há exceções, de famílias que retornaram e vivem atualmente em Benin, mas a maioria não voltou e os dados contabilizados, mesmo não sendo o total, são desumanos.
Conclusão
Em suma, a história africana deve ser específica, por mais que o Brasil desempenhe um papel já importante no ensino da história africana se comparada a outros países, como a Alemanha, por exemplo, conforme indica uma pesquisa do Jornal da USP, a mesma professora coordenadora do dossiê levanta a questão: “Ainda há muitos estigmas em relação à África e o principal é que ela seria homogênea. Os livros didáticos deveriam mostrar sua heterogeneidade e apresentar diferentes situações geográficas”, com objetivo de mitigar essa visão pejorativa e em vista da história dos povos escravizados, uma resolução dessa dívida histórica é reconhecer tais desigualdades presentes no cotidiano e agir perante a elas.
Desde o reconhecimento da violência que atinge majoritariamente a população negra atualmente, até o salário desigual se comparado a população branca e outras contradições ainda presentes, como o reconhecimento de campanhas importantes, como a Equal Earth, que luta contra outra campanha de desinformação mais longa do mundo, que é a distorção do continente africano no mapa Mercator, para que parem de se propagar estereótipos na mídia, educação e política.
Sobre o artigo
Este artigo analisa como a visão homogênea sobre a África contribui para a reprodução de estereótipos históricos e invisibiliza a diversidade política, econômica, cultural e social do continente. A partir de exemplos contemporâneos e de uma contextualização do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, o texto demonstra que os desafios africanos não podem ser compreendidos por meio de generalizações. Também discute como narrativas simplificadas influenciam a educação, a mídia e a percepção internacional, defendendo uma abordagem que reconheça a pluralidade das sociedades africanas e a permanência das desigualdades produzidas pelo colonialismo e pela escravidão.
Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. TEDGlobal, 2009. Disponível em: https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story.
AGÊNCIA BRASIL. União Africana pede mapa-múndi que mostre real tamanho do continente. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-08/uniao-africana-pede-mapa-mundi-que-mostre-real-tamanho-do-continente.
BRASIL ESCOLA. História da África. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historia/historia-da-africa.htm.
CIÊNCIA HOJE. África: muito além de estereótipos. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/africa-muito-alem-de-estereotipos/.
GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. Rotas do tráfico atlântico de pessoas escravizadas. Disponível em: https://www.geledes.org.br/.
JORNAL DA USP. Ensino da História da África ainda enfrenta estigmas e generalizações. Disponível em: https://jornal.usp.br/.
UOL ECOA. Quais países mais enviaram escravos para o Brasil? 2023. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2023/11/09/4-milhoes-de-pessoas-quais-paises-mais-enviaram-escravos-para-o-brasil.htm.




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