top of page

A Grande Crise do Petróleo de 1973: Como o Oriente Médio Parou o Mundo com o Embargo

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • 4 de jul. de 2025
  • 9 min de leitura

Introdução

Em 1973, o mundo parou. Postos de gasolina com filas quilométricas, economias desenvolvidas à beira do colapso, inflação descontrolada, recessão e um abalo sísmico nas relações internacionais. Tudo isso causado por uma decisão histórica: os países árabes exportadores de petróleo decidiram fechar suas torneiras para nações que apoiavam Israel. Dessa forma, o petróleo, que até então parecia uma fonte inesgotável e barata de energia, se transformou em uma poderosa arma geopolítica. O embargo de 1973 não apenas provocou uma das maiores crises econômicas da história, como também redesenhou a ordem mundial, gerando impactos que reverberam até os dias atuais.


Petróleo: O ditador da economia global.
Petróleo: O ditador da economia global.

  1. O Mundo Antes da Crise:

1.1 O Domínio do Petróleo 

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o crescimento das economias ocidentais, impulsionado pela industrialização em larga escala e pela consolidação da sociedade de consumo, dependia profundamente de uma fonte de energia abundante, acessível e barata: o petróleo. Essa dependência não era apenas estrutural, mas estratégica, já que o petróleo movia não só automóveis e indústrias, mas também as engrenagens militares e logísticas do mundo bipolar da Guerra Fria. A maior parte desse petróleo vinha do Oriente Médio, região que, embora rica em reservas, ocupava uma posição subordinada no sistema internacional da energia. Isso porque a produção e comercialização do petróleo estavam concentradas nas mãos de um oligopólio formado por sete gigantescas companhias ocidentais conhecidas como as “Sete Irmãs” que controlavam completamente o mercado. Assim, as nações árabes exportadoras, embora fornecedoras essenciais, eram mantidas à margem das decisões e dos benefícios da cadeia global do petróleo.


As “Sete Irmãs” ditavam os preços, controlavam os contratos de concessão e repassavam apenas uma pequena fração dos lucros aos países produtores. 
As “Sete Irmãs” ditavam os preços, controlavam os contratos de concessão e repassavam apenas uma pequena fração dos lucros aos países produtores

1.2 Tensões e Crises Políticas 

Além da hegemonia petrolífera, a geopolítica  estava em ebulição. O Oriente Médio era palco constante de tensões, especialmente após a Guerra dos Seis Dias (1967), quando Israel ocupou territórios árabes, aumentando a animosidade dos países vizinhos. A rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética, no contexto da Guerra Fria, só tornava a região ainda mais sensível. Outro ponto crítico, já no campo econômico, acendia o alerta.  Isso porque em 1971, o presidente Richard Nixon decretou o fim do padrão-ouro, um sistema monetário em que a moeda de um país tinha seu valor atrelado a uma quantidade fixa de ouro. Isso gerou desvalorização da moeda americana, corroendo as receitas dos países exportadores de petróleo, já que o comércio internacional do petróleo era, e ainda é,  dolarizado.


  1. O Caminho Até o Embargo

2.1 A Guerra do Yom Kippur 

O estopim das tensões veio em 6 de outubro de 1973, quando Egito e Síria lançaram um ataque surpresa contra Israel no Yom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico. Aproveitando a vulnerabilidade israelense durante o feriado religioso, os exércitos árabes buscavam recuperar os territórios perdidos durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O conflito, que ficou conhecido como Guerra do Yom Kippur, rapidamente ganhou proporções internacionais. Com Israel sofrendo duras baixas nos primeiros dias do confronto, os Estados Unidos decidiram intervir diretamente, realizando uma ponte aérea massiva de armamentos e suprimentos militares ao aliado israelense. 

A decisão americana foi vista pelos países árabes como uma clara tomada de partido, rompendo qualquer expectativa de neutralidade americana e escalando as tensões existentes no mundo árabe. Diante desse cenário, as nações exportadoras de petróleo, lideradas pela Arábia Saudita e reunidas na OPAEP (Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo), decidiram agir de maneira inédita: usariam seu maior trunfo econômico, o petróleo, como instrumento de pressão política e diplomática. 


2.2 O Embargo

E assim, em 17 de outubro de 1973, a OPAEP anunciou um embargo total contra países que apoiavam Israel, incluindo Estados Unidos, Holanda, Japão, Canadá e Reino Unido. Além disso, determinaram uma redução gradual da produção de petróleo, forçando uma escalada brutal dos preços no mercado internacional. O barril, que custava cerca de 3 dólares, saltou rapidamente para 12 dólares, um aumento de aproximadamente 400 por cento. Era o fim da era do petróleo barato.


Em verde mais escuro, os membros da Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo
Em verde mais escuro, os membros da Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo

  1. O Mundo Parava e Entrava em um Colapso Imediato

O embargo não foi apenas uma medida simbólica. Ele foi operacionalizado com cortes reais de fornecimento. Países europeus e asiáticos, altamente dependentes, começaram a enfrentar desabastecimento imediato. Nos Estados Unidos, cenas até então inimagináveis tomaram conta das ruas: filas quilométricas nos postos de combustível, placas anunciando “Sem Gasolina”, consumidores revoltados e medidas emergenciais do governo. O presidente Nixon reduziu o limite de velocidade nas rodovias para 88 quilômetros por hora como forma de reduzir o consumo e anunciou o racionamento de combustíveis. Outros países, como Japão e Holanda, também sofreram severamente, levando inclusive a restrições no uso de veículos, rodízios de carros, diminuição da iluminação pública e até suspensão de atividades produtivas.


Um posto de gasolina em uma cidade dos EUA durante a crise de 73
Um posto de gasolina em uma cidade dos EUA durante a crise de 73

  1.  Impactos de Uma Crise Global 

4.1 Na Economia

O impacto econômico do embargo petrolífero foi devastador. A alta repentina dos preços do petróleo, desestabilizou as estruturas econômicas de países altamente industrializados e dependentes de energia fóssil. Além disso, as cadeias produtivas foram severamente afetadas, com a elevação dos custos operacionais em setores fundamentais como transporte, aviação, siderurgia, química e, sobretudo, a indústria automobilística, que havia se expandido com base no petróleo barato. 

O grande choque acabou por gerar um efeito dominó: empresas reduzindo drasticamente sua produção, demissão em massa dos trabalhadores e a operação agora, com margens consideravelmente reduzidas. Isso levou a um fenômeno peculiar, a estagflação, uma combinação paradoxal de estagnação econômica com inflação alta, que contrariava os modelos econômicos vigentes. Além do mais, o poder de compra da população diminuiu até o limite. Produtos essenciais, alimentos, combustíveis e serviços básicos tornaram-se mais caros, pressionando o cotidiano das famílias e ampliando as desigualdades sociais. Os governos, por sua vez, viram-se forçados a adotar políticas de diminuição dos gastos públicos, controle de preços, racionamento de energia e reformas fiscais, enquanto buscavam medidas de médio e longo prazo para reduzir sua vulnerabilidade energética. A crise, portanto, revelou de forma contundente, o quanto a economia global estava refém de um recurso estratégico concentrado em uma região instável.


4.2  No Âmbito Político 

Politicamente, o embargo representou uma ruptura significativa na lógica das alianças tradicionais do pós-guerra e revelou, com clareza, os limites da coesão ocidental diante de interesses estratégicos conflitantes. A dependência energética do petróleo árabe forçou diversos países europeus a reavaliar suas posições diplomáticas em relação ao Oriente Médio. Temendo novas retaliações, embargos prolongados e até represálias comerciais, muitas nações começaram a adotar uma postura mais moderada, e em alguns casos deliberadamente ambígua, em relação ao apoio a Israel. 

Tal reposicionamento estratégico gerou certo desconforto dentro da OTAN, minando o princípio de unidade política e militar entre seus membros. Países como a França e a Alemanha Ocidental passaram a buscar uma autonomia diplomática mais clara em relação aos Estados Unidos, abrindo canais de diálogo com países árabes produtores de petróleo e afastando-se, em certa medida, da linha dura adotada por Washington.


  1.  O Mundo Nunca Mais Foi o Mesmo

    5.1 Mudança na Matriz Energética

O choque do petróleo de 1973 obrigou as potências ocidentais a repensarem de forma urgente suas matrizes energéticas. Regiões até então pouco exploradas, como o Mar do Norte, o Alasca e o Golfo do México, tornaram-se estratégicas para garantir o abastecimento em médio e longo prazo. Além disso, houve uma virada paradigmática na busca por fontes alternativas de energia. Países passaram a investir com força em energia nuclear e hidrelétrica, enquanto movimentos de pesquisa e desenvolvimento voltaram-se, ainda que de forma incipiente, para tecnologias renováveis, como a solar e a eólica. 


Evolução das matrizes energéticas depois da crise
Evolução das matrizes energéticas depois da crise

5.2 Ascensão da OPEP e dos Países Produtores

Com o sucesso do embargo e a disparada dos preços do barril, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que abrange também a regional OPAEP, deixou de ser vista como um mero cartel de coordenação técnica e assumiu o papel de ator central na arena geopolítica internacional. Pela primeira vez, países historicamente periféricos, como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Líbia, passaram a influenciar diretamente as dinâmicas econômicas globais, invertendo a lógica colonial que durante décadas os mantivera subordinados às grandes potências.

As receitas petrolíferas multiplicaram-se em curto espaço de tempo e permitiram não apenas a execução de grandes projetos de infraestrutura e modernização doméstica, como também o financiamento de agendas políticas ambiciosas. Em alguns casos, esses recursos serviram para fomentar causas de expansão árabe e, em contextos mais instáveis, alimentar conflitos e disputas regionais. A balança de poder mundial deslocava-se em direção ao Oriente, desafiando a supremacia do Ocidente.


5.3 Criação de Políticas de Segurança Energética

Diante da vulnerabilidade exposta pela crise, os países consumidores começaram a adotar políticas de segurança energética como um pilar de sua estratégia nacional. Em 1974, foi criada a Agência Internacional de Energia (IEA), sob a liderança dos Estados Unidos e de aliados da OCDE, com o objetivo de coordenar respostas a futuras crises, desenvolver mecanismos de emergência e instituir estoques estratégicos de petróleo.

Nos Estados Unidos, a crise despertou um novo discurso em torno da "independência energética", o que motivou a aprovação de leis voltadas para a eficiência energética, a padronização do consumo automotivo e o incentivo à pesquisa em combustíveis alternativos. As preocupações energéticas passaram a influenciar diretamente políticas fiscais, ambientais, industriais e até militares, consolidando a energia como eixo estruturante da segurança nacional.


Países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em azul escuro. Os ainda candidatos, estão em azul claro.
Países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em azul escuro. Os ainda candidatos, estão em azul claro.

5.4 O Caso do Brasil: O Nascimento do Proálcool

O Brasil foi um dos países mais afetados pela alta dos preços internacionais, dada sua forte dependência do petróleo importado. O custo da energia impactou de forma direta a balança comercial, ampliou a pressão inflacionária e comprometeu os projetos de crescimento acelerado do regime militar. Em resposta à vulnerabilidade exposta, o governo brasileiro lançou, em 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), uma política pública ambiciosa voltada à produção de etanol a partir da cana-de-açúcar como alternativa viável à gasolina.

O Proálcool tornou-se um marco da política energética brasileira e um exemplo mundial de diversificação energética, não apenas por sua eficácia em reduzir a dependência externa, mas também por seus efeitos estruturantes na agricultura, na indústria automobilística e na balança de pagamentos. Paralelamente, a crise também impulsionou o fortalecimento da Petrobras, que passou a receber maiores investimentos e a liderar a busca por autossuficiência energética, um objetivo que só seria plenamente alcançado décadas depois, mas que teve sua gênese nesse momento de inflexão.

Gráfico da evolução da produção de etanol no Brasil, evidenciando o tamanho da importância do Proálcool desde seu início na década de 70
Gráfico da evolução da produção de etanol no Brasil, evidenciando o tamanho da importância do Proálcool desde seu início na década de 70

5.5 Surgimento do Neoliberalismo

Para além das consequências materiais, a crise de 1973 provocou um abalo profundo nas estruturas filosóficas e ideológicas que sustentavam o modelo econômico dominante desde o pós-guerra. Até então, o mundo ocidental, especialmente sob a influência do keynesianismo, acreditava que o Estado deveria ter papel central na regulação da economia, na promoção do bem-estar social e na indução do crescimento por meio de investimentos públicos. Entretanto, a estagflação provocada pela crise desafiou essa lógica. A combinação inédita de inflação alta com crescimento estagnado colocou em xeque a eficácia das políticas intervencionistas e abriu espaço para uma nova leitura dos fenômenos econômicos. Nesse cenário, emergiu com força um pensamento crítico ao "inchaço estatal", que via no excesso de regulação, nos déficits públicos e na rigidez dos mercados as verdadeiras causas da crise.

A partir daí, o pensamento neoliberal, inspirado por autores como Friedrich Hayek e Milton Friedman,  ganhou tração nos círculos acadêmicos e políticos. Sua proposta central consistia em redefinir o papel do Estado, defendendo cortes de gastos públicos, privatizações, abertura comercial, desregulamentação dos mercados e flexibilização das relações de trabalho. A economia deveria se autorregular por meio das forças de mercado, e a intervenção estatal deveria se limitar à garantia das regras do jogo. Nos anos seguintes, o neoliberalismo deixaria o campo das ideias e passaria a orientar programas concretos de governo, como na Inglaterra de Margaret Thatcher e nos Estados Unidos de Ronald Reagan, promovendo uma reconfiguração profunda do contrato social estabelecido no pós-guerra. 


Mapa mental sobre Neoliberalismo
Mapa mental sobre Neoliberalismo

Conclusão

A Grande Crise do Petróleo de 1973 não foi um episódio isolado nem um contratempo meramente conjuntural. Ela foi, acima de tudo, um divisor de águas que expôs as fragilidades estruturais do sistema econômico global, evidenciou a dependência quase absoluta do petróleo como base da civilização industrial e revelou, de forma agressiva, o poder geopolítico dos recursos naturais. Ao transformar o petróleo em uma arma diplomática, os países árabes não apenas alteraram o equilíbrio de forças no Oriente Médio, mas também impuseram uma reconfiguração profunda da ordem internacional.

Neste contexto, as consequências foram múltiplas e de longo alcance. Tivemos uma aceleração da diversificação das matrizes energéticas, criação de políticas permanentes de segurança energética, fortalecimento da influência dos países produtores e o desencadeamento de uma mudança de paradigma na própria concepção do papel do Estado na economia. A crise desestabilizou o modelo keynesiano de bem-estar social, abriu caminho para a ascensão do pensamento neoliberal e redefiniu, em larga medida, os termos do debate político e econômico global nas décadas seguintes.

Mais do que um problema de abastecimento, o embargo de 1973 revelou que energia, poder e soberania são dimensões inseparáveis no mundo contemporâneo. Ainda hoje, em cada instabilidade no Oriente Médio, em cada flutuação brusca nos preços do barril ou em cada tentativa de transição energética, o eco daquele momento histórico se faz presente. Por fim, a reflexão que nos fica é que enquanto o mundo depender de recursos concentrados em regiões instáveis, nenhuma economia estará verdadeiramente segura, e nenhuma política estará isenta de seus efeitos.


Autor: Matheus Gonçalves Pinheiro


Comentários


© 2024 by Geo Expand. Made by Codew

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram - Black Circle
bottom of page