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Agronegócio e Sustentabilidade: coexistência possível ou contradição absoluta?

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • 10 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Introdução

A relação entre agronegócio e sustentabilidade tem sido um dos debates mais controversos no que se relaciona ao meio ambiente. De um lado, o setor é celebrado por sua força capaz de mover a economia de diversas formas ou por alimentar populações crescentes; de outro, é criticado por práticas predatórias, responsáveis por desmatamentos, emissões de gases de efeito estufa e degradação de ecossistemas. No Brasil, onde o agronegócio representa parcela significativa da economia e domina exportações, a tensão entre produção e preservação se torna ainda mais evidente. Afinal, o agronegócio pode realmente operar de forma sustentável, ou essa tentativa é apenas uma contradição disfarçada?


A relevância econômica do agronegócio e suas tecnologias

Falar de agronegócio no Brasil é falar de um setor que domina a economia do país. Em média, ele responde por quase um quarto do PIB nacional e representa mais da metade do volume das exportações em vários anos. O agronegócio garante divisas, que estabilizam a balança comercial e que sustentam milhões de empregos diretos e indiretos. A partir dos anos 1990, especialmente com a expansão agrícola em regiões do Cerrado, o país consolidou-se como uma potência global na produção principalmente de soja e café, mas também de milho, café, carne bovina e outros.


Esse avanço nos anos 1990 se caracteriza pela incorporação de tecnologias, como máquinas automatizadas, sistemas de irrigação de precisão, sementes geneticamente melhoradas e softwares capazes de mapear cada centímetro de solo, transformou o campo brasileiro em um dos que mais possuem inovações na área, explicando o seu protagonismo agrícola. Grandes fazendas operam com rotinas altamente digitalizadas: drones avaliam pragas em tempo real, sensores no solo medem umidade e nutrientes, e algoritmos indicam a quantidade exata de fertilizantes a serem aplicados; esses são só exemplos.



Além disso, o setor agrícola também desempenha um papel social relevante, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Milhões de brasileiros dependem direta ou indiretamente da produção agropecuária, desde trabalhadores rurais até profissionais de logística, transporte, armazenagem, pesquisa e indústria de alimentos. Em muitos municípios do Centro-Oeste, Norte e partes do Nordeste, a atividade agrícola e pecuária é responsável por praticamente toda a arrecadação municipal, financiando serviços públicos essenciais. Sem o agronegócio, algumas regiões do país teriam pouca ou nenhuma alternativa econômica.


Impactos ambientais

Entretanto, os avanços convivem com problemas que o setor ainda não conseguiu eliminar: os impactos ambientais. O desmatamento segue sendo um dos pontos mais sensíveis. Embora parte significativa do setor agrícola opere dentro da lei e até invista em práticas sustentáveis, a expansão histórica da produção, especialmente de pecuária e soja, avançou sobre biomas como Amazônia e Cerrado, deixando um rastro de impactos difíceis de ignorar, associado, assim, às ações de uma minoria predatória que se beneficia de fiscalização insuficiente e conflitos fundiários persistentes.


Como exemplo, municípios como São Félix do Xingu, no Pará, tornaram-se símbolos desse processo, acumulando alguns dos maiores índices de desmatamento nas últimas décadas devido ao crescimento acelerado do rebanho bovino. Esses episódios foram particularmente visíveis nos surtos de queimadas de 2019, quando áreas como o sul do Pará e o norte de Mato Grosso chamaram a atenção mundial.


Além do desmatamento, outros impactos ambientais também se destacam. O uso intensivo de fertilizantes e pesticidas em algumas regiões contamina rios e lençóis freáticos, interfere na fauna local e compromete a saúde humana. A erosão de solos em áreas mal manejadas diminui a fertilidade e reduz a capacidade produtiva ao longo dos anos.


Esses aspectos alimentam a narrativa de que o agronegócio seria intrinsecamente incompatível com a sustentabilidade. Mas essa ideia começa a perder força quando analisamos os movimentos de transformação que o setor vive atualmente.



Inovações e práticas que contribuem para a sustentabilidade

Embora seja comum pensar no agronegócio como um setor resistente a mudanças, os últimos anos mostram um cenário de intensa transformação. Vários segmentos do agro estão removendo o pensamento de sustentabilidade como um custo e começaram a perceber que , na verdade, é um investimento estratégico. E diferentes fatores internos e externos vêm impulsionando essa transição.


Um dos exemplos que mais se destacam é a difusão do plantio direto, que mantém a palha na superfície do solo em vez de revolvê-lo. Essa técnica reduz drasticamente a erosão, melhora a retenção de água, diminui o uso de combustíveis fósseis e aumenta a matéria orgânica do solo. Hoje, o Brasil é líder mundial na adoção desse sistema. Outra prática em ascensão é a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo combina diferentes atividades produtivas em uma mesma área de forma planejada e rotativa. Com isso, reduz-se a necessidade de expandir a área cultivada, enquanto se melhora a fertilidade do solo e se aumenta a captura de carbono.



Além dessas técnicas, cresce o uso de bioinsumos e defensivos biológicos, que substituem produtos químicos por agentes naturais para o controle de pragas e doenças. Essa mudança reduz a contaminação da água e favorece a biodiversidade do solo. A indústria dessas soluções cresceu exponencialmente na última década, impulsionada tanto por produtores preocupados com sustentabilidade quanto por consumidores mais atentos à origem dos alimentos.


Entretanto, não são apenas fatores internos que têm impulsionado a mudança. O mercado internacional exerce enorme pressão sobre as práticas produtivas brasileiras. A União Europeia já implementa regras contra a importação de produtos associados ao desmatamento. Grandes redes varejistas globais têm assumido compromissos ambientais rígidos e exigido rastreabilidade completa das cadeias produtivas.


Então, observa-se que não se trata apenas de uma preocupação ambiental, mas de uma condição para competir no mercado global. Isso vem estimulando mudanças que, ainda que lentas, são decisivas.


Obstáculos e riscos

Apesar dos avanços, a transição sustentável do agronegócio enfrenta obstáculos significativos. O primeiro, e mais presente, é a desigualdade tecnológica entre pequenos e grandes produtores. Fazendas de grande porte conseguem investir em máquinas de última geração, drones e softwares caros. Já agricultores familiares, que representam grande parte da produção interna de alimentos, enfrentam dificuldades de acesso, assistência técnica e capacitação. Sem esses recursos, é muito mais difícil adotar práticas sustentáveis, mesmo que elas sejam, a longo prazo, mais baratas e eficientes, pois os pequenos agricultores podem não ter condições para arcar com o começo da transição. 


Outro desafio é a fragilidade da fiscalização ambiental. O Brasil possui uma das legislações ambientais mais completas do mundo, que exigem, por exemplo, a manutenção de áreas de preservação permanente e reservas legais. Na teoria, essas normas seriam suficientes para garantir um equilíbrio entre produção e conservação. Na prática, a aplicação é frequentemente falha. Faltam infraestrutura e continuidade de políticas públicas e, em alguns casos, levam a conflitos políticos sobre como fiscalizar.


O resultado é um ambiente onde a maioria dos produtores cumpre a lei, mas paga o preço reputacional pelas ações de uma minoria que insiste em abrir áreas de forma ilegal. Quando os órgãos de fiscalização não conseguem agir, o mercado internacional assume esse papel, impondo exigências que, se por um lado impulsionam boas práticas, por outro podem gerar barreiras comerciais difíceis para pequenos produtores.


Esses obstáculos mostram que a sustentabilidade não depende apenas de tecnologia ou boa vontade individual. Ela exige coordenação, governança e políticas públicas consistentes, capazes de criar incentivos adequados e punir irregularidades de forma rápida e efetiva.


Conclusão

Embora de maneiras desiguais e cheias de contradições, a convivência entre o agronegócio e a sustentabilidade está, aos poucos, já entrando em curso. Práticas consolidadas, tecnologias avançadas e modelos produtivos capazes de conciliar alta produtividade com baixo impacto ambiental já se fazem presentes na área do agro. Porém, também há desafios estruturais, comportamentais e institucionais que impedem uma transição mais ampla e uniforme.


A contradição entre produção e preservação não é um impasse inevitável. Ela surge quando o setor falha em enxergar que suas bases, como o solo fértil, regimes climáticos estáveis, água disponível e biodiversidade funcional, por exemplo, dependem diretamente de ecossistemas equilibrados. Em outras palavras, a sustentabilidade não limita o agronegócio, mas garante sua continuidade.


Assim, o futuro da agricultura depende de um esforço conjunto,  políticas públicas consistentes de fiscalização eficaz, acesso equitativo à tecnologia, incentivos econômicos adequados e de envolvimento ativo dos produtores. Mas depende, principalmente, de abandonar divisões e reconhecer que o verdadeiro desafio não é escolher entre produzir e preservar, e, sim, fazer com que ambas as tarefas caminhem lado a lado.


Por Raul Holanda



 
 
 

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