Cultura como resistência: a arte nas periferias e a disputa por narrativas
- Geo Expand

- há 18 horas
- 6 min de leitura
Introdução
A arte é a perfeita definição de como pode ser uma expressão humana. Ela é um meio que permite a qualquer um transmitir sentimentos, histórias e culturas diferentes. Uns dos principais exemplos são pinturas, danças, cinema, músicas e esculturas. Já a cultura é um conjunto que representa inúmeras características de um povo, como costumes, crenças, tradições, valores e até artes. Ela constrói a identidade de uma sociedade.
Diante disso, a cultura e a arte, em diversos momentos históricos, sempre funcionaram como ferramentas de resistência diante de contextos de opressão, exclusão ou desigualdade. Quando determinados grupos são silenciados politicamente, invisibilizados ou estigmatizados socialmente, a cultura e a arte surgem como meios de expressão e afirmação. No Brasil, esse fenômeno é especialmente visível nas periferias urbanas, onde a produção cultural não apenas entretém, mas confronta discursos dominantes, questiona estruturas de poder e reivindica o direito de narrar a própria história.
As periferias brasileiras são quase sempre vistas pela população, tanto estrangeira quanto brasileira, como lugares de extrema violência, precariedade e criminalidade. Porém, são, na realidade, lugares ricos de criatividade e cultura. Nessas regiões, surgem movimentos culturais que transformam vivências cotidianas em música, literatura, cinema, teatro, dança e artes visuais. A arte produzida nesses espaços responde a desigualdades históricas, denuncia injustiças, como violência policial, racismo estrutural e ausência de políticas públicas, e constrói novas imagens sobre o que significa viver nessas áreas. Assim, falar de cultura periférica é falar também de resistência simbólica e disputa por narrativas.
A construção de identidade em contextos de exclusão
Em comunidades marcadas por carência de investimentos públicos, como escolas públicas, ausência de centros culturais e escassez de oportunidades formais de emprego, a arte assume um papel mais que importante na construção de uma identidade coletiva. Ela oferece um espaço onde as pessoas possam expressar experiências ou memórias pessoais e transformar dificuldades em algo bonito e necessário.
Como um forte exemplo, destaca-se o grupo musical Racionais MCs. Composto por rap, grafite, break e DJ, ele se consolidou como forma de denúncia e afirmação cultural nas periferias brasileiras a partir dos anos 1990. O grupo Racionais MCs, por exemplo, transformou relatos sobre desigualdade racial, encarceramento em massa e violência policial em narrativas musicais que alcançaram o país inteiro. A música “Diário de um Detento”, baseada na experiência real de um sobrevivente do massacre do Carandiru, ao relatar um episódio histórico, oferece uma perspectiva sobre o sistema prisional brasileiro por dentro e humaniza pessoas que frequentemente são retratadas apenas como estatísticas.
Da mesma forma, batalhas de rima realizadas em praças públicas, como as tradicionais rodas de freestyle em São Paulo e no Rio de Janeiro, criam espaços de expressão onde as pessoas podem discutir temas como preconceito, falta de oportunidades, desigualdade educacional e violência cotidiana. Esses encontros são competições, mas, principalmente, arenas simbólicas.
A literatura periférica
Além disso, a disputa por narrativas também se manifesta na literatura. Durante muito tempo, o mercado editorial brasileiro foi dominado por autores, principalmente homens, de classes médias e altas, o que limitava as perspectivas representadas nas obras publicadas. A chamada literatura marginal ou periférica surge como algo contrário a esse cenário, ampliando vozes e temas.
Autores como Ferréz passaram a retratar o cotidiano das periferias sob uma ótica interna, explorando questões como a violência urbana, relações familiares e sonhos que são interrompidos pela desigualdade. Em vez de reproduzir estereótipos, essas obras apresentam personagens complexos, com conflitos, desejos e trajetórias próprias.
Saraus literários organizados em bairros periféricos, como encontros semanais em bibliotecas comunitárias ou bares locais, também desempenham papel importante. Neles, moradores leem poemas autorais, compartilham crônicas e discutem livros, ampliando o acesso à literatura, tanto como leitores como escritores. A literatura periférica reivindica o direito de contar histórias a partir da própria experiência, desafiando hierarquias culturais tradicionais.

Cinema e o audiovisual como ferramentas de representação
No campo do audiovisual, durante décadas, grande parte das representações cinematográficas das favelas brasileiras foi construída por diretores externos às comunidades, o que gerou debates sobre autenticidade e perspectiva. O filme “Cidade de Deus”, dirigido por Fernando Meirelles e indicado ao Oscar, levou a realidade das periferias do Rio de Janeiro ao cenário internacional, mas também levantou questionamentos sobre a violência e sobre quem controla a narrativa.

Em resposta, coletivos audiovisuais formados dentro das próprias comunidades passaram a produzir documentários, curtas-metragens e séries independentes. Projetos como oficinas de cinema em escolas públicas, festivais de curtas produzidos por jovens de favelas e canais digitais que retratam o cotidiano local mostram que a periferia também pode ser produtora de imagem, não apenas objeto dela.
Outra obra extremamente recente e importante é o filme de 2025 “Vitória”, estrelado pela brilhante Fernanda Montenegro, que, com extremos detalhes, retrata a história real de uma senhora de 80 anos que, com apenas uma câmera e sua coragem, desmantelou um esquema de tráfico de drogas em Copacabana.
Essas produções abordam temas diversos, como empreendedorismo comunitário, histórias de mulheres líderes locais, memórias de moradores antigos e iniciativas culturais que transformam o território. Ao fazer isso, ampliam a compreensão sobre a complexidade desses espaços e rompem com a narrativa única da violência.
Grafite e memória visual
O grafite é uma das principais formas de resistência cultural nas periferias. Diferentemente da pichação, frequentemente criminalizada, o grafite é reconhecido como expressão artística e ocupa muros, viadutos e prédios com mensagens políticas e identitárias. Murais que retratam líderes comunitários, artistas negros, mulheres periféricas e vítimas de violência transformam o espaço urbano em galeria a céu aberto.
Essas intervenções visuais disputam a paisagem da cidade. Em vez de propagandas comerciais ou mensagens institucionais, os muros passam a exibir narrativas comunitárias. Um mural que homenageia uma jovem vítima de violência policial, por exemplo, funciona como memorial coletivo. Já uma pintura que celebra mulheres negras empreendedoras da comunidade reforça referências positivas para as novas gerações.
Nos coletivos casadalapa, Transverso e Paulestinos, na capital paulista, surge como exemplo o painel da exposição ‘Vidas em Obras’ que foi parar nos muros da Cracolândia, uma das regiões de São Paulo que mais sofre com propostas higienistas.
Além disso, o grafite também cria oportunidades profissionais. Jovens que começam pintando murais em seus bairros podem se tornar artistas reconhecidos, participar de exposições e trabalhar com design ou ilustração. Assim, a arte urbana alia resistência simbólica e possibilidade concreta de mobilidade social.
Já internacionalmente, nos Estados Unidos, o país do sonho americano está atualmente sendo dominado por protestantes de diversas realidades sociais contra dois inimigos em comum: a ICE, organização que abomina imigrantes, e o presidente Donald Trump.
Nessa situação, a população também continua a se apoiar na arte como resistência às políticas atualmente impostas e, de alguma forma, gritar por liberdade e humanidade. Em contextos como esses, em que o Estado muitas vezes se faz presente apenas por meio da repressão, a arte também assume uma função estratégica na prevenção à violência.

Disputa simbólica e poder
A disputa por narrativas é, em última instância, disputa por poder. Quem controla a narrativa controla a memória coletiva e influencia políticas públicas. Quando a periferia é vista apenas como problema de segurança pública, as soluções tendem a privilegiar repressão. Quando é reconhecida como espaço de produção cultural, talento e inovação, surgem possibilidades de investimento em educação, cultura e infraestrutura.
A cultura periférica desafia discursos simplificadores. Ao produzir músicas que denunciam racismo, filmes que mostram empreendedorismo comunitário e livros que retratam afetos e solidariedade, artistas periféricos ampliam a compreensão sobre seus territórios. Eles mostram que a periferia não é apenas espaço de carência, mas também de potência.
Além disso, a expansão das redes sociais fortaleceu essa disputa. Plataformas digitais permitem que artistas lancem músicas independentes, divulguem saraus, organizem campanhas de financiamento coletivo e alcancem públicos nacionais e internacionais. A democratização do acesso às ferramentas de produção cultural amplia a capacidade de resistência simbólica.
Conclusão
A cultura nas periferias brasileiras é expressão de resistência, afirmação identitária e disputa por narrativas. Por meio do hip-hop, da literatura marginal, do cinema comunitário, do grafite e de inúmeros projetos culturais, moradores transformam experiências de exclusão em linguagem criativa e política. Exemplos concretos mostram que a arte periférica não é marginal no sentido de irrelevante, e sim central para compreender o país e a população.
Reconhecer a cultura como resistência significa reconhecer que a luta por representação é também luta por dignidade. Quando autores periféricos publicam seus livros ou coletivos organizam festivais culturais em seus bairros, estão reivindicando o direito de contar suas próprias histórias. E, ao fazer isso, transformam não apenas a narrativa sobre a periferia, mas também a própria sociedade que insiste em defini-la de fora para dentro com diversos estereótipos.

Por Raul Holanda




Comentários