Crise Social: Como a ciência passa a ser desacreditada no século XXI
- Geo Expand

- 3 de nov. de 2025
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O desacreditamento na ciência pode ser chamado de negacionismo científico, isto é, quando pessoas recusam fatos comprovados por meio de evidências, preferindo promover informações falsas baseadas em seus interesses pessoais, políticos, ideológicos ou financeiros. Porém, para entender o negacionismo científico, é preciso entender o que é ciência.
A ciência é uma forma sistemática de aquisição de conhecimentos, baseada em um método objetivo e bem definido, conhecido como método científico. Ela se baseia em algumas principais características que a diferem do senso comum, sendo elas:
Objetivismo, buscando ser imparcial e não tendo nenhuma influência de interesses pessoais.
Verificável, em que põe todas as teorias científicas à prova.
Lógica, não aceitando contradições.
Quando um cientista propõe uma teoria científica, significa que ele observou a hipótese, seguiu um método científico, fez experimentos, testou e chegou a X resultados.
Durante muito tempo, a ciência foi vista como revolucionária, o motor para o progresso da sociedade. Ela ajudou a raça humana a descobrir como curar doenças que pareciam ser incuráveis, deu a eletricidade, meios de transporte tecnológicos e até a internet. Tudo isso parecia provar que o conhecimento científico era o melhor caminho para uma evolução.
Mas, inacreditavelmente, no século XXI, alguma coisa mudou. A confiança na ciência passou a ser reduzida, introduzindo cada vez mais dúvidas e boatos relacionados a pesquisas e teorias científicas. Pessoas que passaram a desacreditar, conhecidas como negacionistas, termo que começou a ser utilizado pelo historiador Henry Rousso ao se referir àqueles que negavam o holocausto promovido pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, de repente esqueceram o que a ciência já proporcionou para o ser humano.

A Pós-verdade e o algoritmo digital
Nos dias atuais, a sociedade vive a era que a filosofia chama de Pós-verdade, em que mesmo quando cientistas e estudiosos apresentam comprovações, são questionados por negacionistas que negam seus fatos em uma possível maneira de fugirem de verdades desconfortáveis ou de que não valorizem seus interesses pessoais. Além disso, informações falsas, as fake news, surgiram junto à evolução da internet e à seleção de algoritmos.
Cada um vive dentro de sua bolha de informação, formada por aquilo que gosta de ver nas redes sociais. Se uma pessoa já desconfia de vacinas, o algoritmo vai mostrar cada vez mais vídeos e postagens que reforçam essa ideia. Assim, ela tem a impressão de que todo mundo pensa igual e passa a acreditar ainda mais naquilo. Esse mecanismo, chamado de viés de confirmação, faz com que seja muito difícil mudar de opinião, mesmo quando surgem provas claras do contrário.
O negacionismo durante a pandemia da Covid-19
A pandemia deu ao mundo um cenário de diversas mortes e preocupações, em que famílias eram separadas, sonhos eram destruídos e as ruas eram tomadas pelo silêncio. Porém, em meio ao caos, cientistas trabalhavam dia e noite para achar uma possível vacina para esse vírus devastador.
Enquanto isso, milhões de pessoas acreditavam em curas milagrosas, receitas caseiras e teorias sem sentido. Alguns diziam que o vírus não existia, outros que a vacina mudaria o DNA ou servia para controlar a população. Tornaram-se comuns suposições de caixões funerários estarem sendo enterrados vazios, ou de que o número de casos divulgados pelas secretarias estaduais de saúde estava fraudado, pois os hospitais estavam supostamente vazios e médicos fariam laudos falsos sobre óbitos por Covid-19.
Essas ideias se espalharam muito rápido nas redes sociais e fizeram com que muitas pessoas deixassem de se proteger. O resultado foi trágico: mais desconfiança, mais medo e, infelizmente, mais mortes.
Essa desconfiança na ciência tem várias causas. Uma delas é que, hoje, quase ninguém acredita cegamente em autoridades, políticos, instituições, nem em cientistas. Questionar é importante, mas o problema é quando a dúvida vira rejeição total. A ciência começou a ser vista por alguns como algo distante, controlado por poderosos ou movido por interesses. De fato, já houve casos em que empresas pagaram por pesquisas que favoreciam seus produtos, como aconteceu com indústrias de cigarro, petróleo e alimentos ultraprocessados. Isso abalou a imagem da ciência e fez muita gente achar que os cientistas podem ser comprados.

A Cultura do agora
A crise de confiança na ciência, no fundo, é parte de uma crise maior da sociedade. Vivemos tempos de muita incerteza, mudanças rápidas, problemas econômicos, ansiedade, conflitos políticos e ambientais. Diante disso, muita gente procura explicações simples para o que está acontecendo. A ciência, por outro lado, raramente oferece respostas rápidas ou fáceis. Ela avança devagar, com cuidado, e nem sempre traz boas notícias. Por isso, às vezes, as pessoas preferem acreditar em teorias que dão conforto imediato, mesmo que não façam sentido.
Isso pode ser comprovado na área da sociologia pelos estudos de Zygmunt Bauman e sua teoria da sociedade líquida. Ele afirma que, atualmente, os humanos são marcados pela cultura do agora, em que o instantâneo é almejado. Por que e para que esperar? Esperas e esforços a longo prazo não são bem-vindos, buscando soluções e satisfações imediatas.
Entretanto, é justamente por vivermos tempos tão difíceis que a ciência se torna ainda mais necessária. Ela é o melhor instrumento que temos para entender o mundo e enfrentar problemas de forma realista. A ciência não depende de fé, mas de provas. E embora não seja perfeita, é o único caminho que nos permite corrigir erros e avançar. Sem ela, a sociedade voltaria a viver vendada, guiada por suposições baseadas nas opiniões de determinado grupo social ou religioso.

Consequências
Quando a ciência é desacreditada, as consequências aparecem na vida real. Nos últimos anos, o número de pais que deixaram de vacinar seus filhos aumentou em vários países. Com isso, doenças como o sarampo, que já estavam praticamente erradicadas, voltaram a circular. No caso das mudanças climáticas, a negação das evidências científicas faz com que governos e empresas atrasem medidas urgentes, o que agrava enchentes, secas e queimadas.
Ignorar a ciência não é apenas uma questão de opinião, é uma escolha que coloca vidas em risco, como, por exemplo, ao espalhar noticias falsas sobre vacinas e acabar causando um idoso a não se vacinar por acreditar nessa tal notícia, pode submete-lo a uma subjetiva sentença de morte num caso de possível contração da doença.
Também é importante mostrar que a ciência não é um conjunto de verdades absolutas, e sim um processo em constante construção. O que a ciência faz é testar hipóteses, comparar resultados, corrigir erros e aprender com o tempo. Quando os cientistas mudam de opinião diante de novas evidências, não quer dizer que são irresponsáveis ou que classificam rasas suposições como verdades; é o que prova que o método científico funciona. Admitir erros faz parte do desenvolvimento, e é isso que diferencia a ciência do senso comum, por exemplo.
Reflexão
Portanto, defender a ciência é defender a razão e a busca por respostas e soluções baseadas em fatos e pesquisas, mesmo em um mundo cheio de negação e dúvida. Em tempos de desinformação e polarização, continuar acreditando na ciência é também acreditar no diálogo, no debate e na importância das evidências.
Mesmo sujeita a erros ou limitações, a ciência é o meio capaz de salvar a sociedade de pandemias, crises globais e descobrir soluções a diversos problemas.
Por Raul Holanda




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