Geopolítica Não Renovável: como petróleo e gás natural moldam a política mundial
- Geo Expand

- 24 de nov. de 2025
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Introdução
Após a Revolução Industrial, a geração de energia passou a ser primordial para o mundo todo, visto que o mundo industrializado a exige constantemente para seu funcionamento. Durante a Primeira e Segunda Revolução Industrial, o carvão foi fundamental, porém no século 20, começou a ser substituído pelo petróleo e seus derivados. E no decorrer dos anos, o gás natural mostrou-se uma alternativa de bom custo benefício, o que atraiu o investimento de diversos países, como o Brasil, por exemplo.
Dessa forma, ascenderam países consumidores e produtores de energia, que passaram a criar alianças, tensões e disputas por reservas desses recursos - como o petróleo e gás natural - e rotas de transporte, o que culmina em uma influência direta nas relações internacionais entre as nações, em prol da dependência energética. Consequentemente, o petróleo e gás natural exercem grande poder sobre a geopolítica, sendo fatores centrais para a interdependência, economia e disputas de poder.

O petróleo e gás natural na política e economia
Como citado anteriormente, os países tornam-se estritamente dependentes da energia, de forma que visar por esses recursos seja crucial em meio a política, através de importações ou produção própria. A Europa, por exemplo, importava 90% do gás que consumia, com 40% vindo da Rússia, de maneira que o conflito Ucrânia e Rússia abranja também a segurança energética europeia.
Porém, a crise energética europeia intensificada com a invasão russa na Ucrânia e pela subsequente interrupção no fornecimento de gás pela Rússia em 2022, mas ainda atualmente, continua a afetar profundamente o continente, à medida que passou a optar por variações energéticas e projetos, como o plano implementado pela União Europeia chamado “REPowerEU”, que consiste na busca por menos dependência nos combustíveis fósseis russos, através da substituição por energias limpas, como a eólica e solar, as quais contribuíram para a redução de 17%-20% do uso do gás natural, com geração de energias renováveis e por influência também de outros fatores.

Tudo isso exemplifica como a segurança energética torna-se um fator essencial nas decisões políticas e relações internacionais e no geral, o petróleo e gás natural fornecem essa segurança para a maior parte dos países, em um contexto geral, devido a sua disponibilidade contínua e acessível, entretanto, vale ressaltar que como no exemplo citado anteriormente, também proliferam vulnerabilidades significativas, em consequência da dependência em importações desigual entre os países, que pode gerar instabilidade política tanto em países produtores, quanto importadores, especialmente em quesitos econômicos, como nas sanções estabelecidas pela Rússia no gás natural a Europa, em meio ao conflito e a região do Oriente Médio, que é a detentora das maiores reservas de petróleo e essa abundância sustenta o PIB (Produto Interno Bruto) de diversos países, como Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes.
Sendo assim, o papel na economia é igualmente central, com diversos países que utilizam desse mecanismo para proveito próprio, como a Rússia e Arábia Saudita, que utilizam seu controle sobre o petróleo e gás natural como ferramentas de poder por meio da formação de cartéis, como a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que inclui alguns países produtores de petróleo que coordenam a produção e preços desse recurso, com objetivo de maximizar lucros, limitar a concorrência e influenciar preços globais.
A influência econômica ocorre também em âmbito nacional, uma vez que desde 1997 há a Lei nº9.478/1997, cuja instituiu a Política Energética Nacional e criou o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), com objetivo de regulamentar a energia brasileira e instigar a produção no Brasil, com fins econômicos, ambientais e sociais e também pra incrementar a utilização do gás natural. Outro exemplo trata-se do Departamento de Política de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural, vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME), que busca também da mesma forma incentivar investimentos no setor de produção de petróleo e gás natural, no decurso de políticas públicas. Ademais, o departamento é responsável por fiscalização das atividades e áreas para exploração e produção, cujo incluí avaliação ambiental e potencial petrolífero das bacias sedimentares brasileiras.
Com isso, é estabelecida a política brasileira no setor de petróleo e gás natural, que incluem também cláusulas, presentes em contratos desde 1999 que exigem que parte dos bens e serviços usadas na produção sejam adquiridas de empresas nacionais para esses recursos, para fortalecer a indústria nacional, entretanto, esses contratos foram recentemente ajustados para equilibrar a competitividade da indústria com a atração de investimentos.
Conflitos
As disputas por petróleo e gás natural são um dos maiores motivos para disputas armadas, instabilidade geopolítica e conflitos em diversas regiões do mundo, com destaque para a África, Ásia Central e Oriente Médio.
A riqueza em recursos na região do Oriente Médio foi um dos grandes motivos de conflitos há anos atrás, pois detém de aproximadamente 48% a 55% das reservas do petróleo mundialmente, especialmente no Golfo Pérsico, que trata-se da região costeira mais rica em petróleo do Planeta e é responsável por atender pelo menos 50% das exportações globais de petróleo. Essa quantidade de recursos concentrada foi responsável por gerar diversas disputas pela região, por conta disso, diversas forças navais localizam-se nas águas do golfo para proteger as reservas de petróleo.

Alguns dos conflitos gerados, foram a Guerra do Yom Kippur (1973), que ocorreu entre árabes e israelenses, a Guerra Irã-Iraque (1980-1988) e a Guerra do Golfo (1991), consequente da invasão de Kuwait pelo Iraque, que sofreu intervenção dos EUA, que resultou na expulsão do Iraque e destruição de poços de petróleo, que desestabilizou acentuadamente o preço do barril, de US$40 para US$80 em poucos meses. Pela região ser de interesse global, é frequente intervenções de potências como os Estados Unidos, a China e a Rússia, como no Golfo da Guiné, na África Ocidental, que atrai empresas dos EUA, França, China e Reino Unido, o que gera tensões políticas pra proteger seus interesses econômicos. A China, particularmente, tem aumentado sua influência na região, com 64% das exportações de petróleo do Sudão destinadas ao país. Houve também na região a guerra civil do Sudão do Sul, que foi intensificada pela luta pelo petróleo, que é a base econômica do país.
Ambiental
A dimensão ambiental tornou-se um componente inseparável da geopolítica da energia. Embora petróleo e gás natural ainda dominem o sistema internacional, a pressão por redução de emissões e o avanço de acordos como o Acordo de Paris impulsionam mudanças estruturais.

Novas disputas geopolíticas por minerais estratégicos (lítio, cobalto, terras raras) usados em baterias e painéis solares;
Rearranjos econômicos em países cuja renda depende fortemente do petróleo, que enfrentam desafios para diversificar seus PIBs.
Apesar desses avanços, a transição ainda é lenta. Grandes produtores como Rússia, Arábia Saudita e Estados Unidos mantêm alto poder geopolítico graças ao controle de reservas, dutos, refinarias e capacidade de exportação.
Conclusão
O petróleo e o gás natural continuam ocupando posição central na geopolítica global, determinando alianças, tensões, conflitos e decisões econômicas. A dependência internacional desses recursos torna países produtores agentes estratégicos, capazes de influenciar mercados e políticas externas, enquanto consumidores enfrentam vulnerabilidades diante de crises ou conflitos.
Ao mesmo tempo, a crescente preocupação ambiental e o avanço das energias renováveis iniciam uma transformação gradual no sistema energético mundial. Essa transição, porém, é desigual e enfrenta resistências políticas e econômicas, especialmente em países cuja estabilidade depende do petróleo.
Assim, o mundo vive um período de sobreposição entre dois modelos:um sistema tradicional baseado em combustíveis fósseis, ainda dominante, e um sistema emergente impulsionado por energias limpas.O resultado dessas dinâmicas definirá não apenas o futuro da segurança energética, mas também os rumos da economia global, dos conflitos internacionais e das estratégias de poder no século XXI.
Fontes:
Laura Castro




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