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Guerra da informação: como as potências disputam narrativas no cenário global?

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Introdução


O final da década de 1990 revolucionou a disseminação de informações através do desenvolvimento da tecnologia online, de forma que a capacidade de manipular narrativas, confundir a opinião pública e desordenar sistemas sociais e políticos foi aprimorado pelo uso de inteligência artificial, fake news e ataques cibernéticos. Trata-se do uso de tecnologias da informação e comunicação com objetivo de obter vantagem, através do controle de imagem e propaganda, que ficou conhecido como “Guerra da informação”, que pode ser utilizado não só por agentes não estatais, mas também por agentes estatais, como as potências.


De acordo com Samuel Huntington em seu livro A ordem política em uma sociedade em mudança, “Não é a agressão de exércitos estrangeiros que representa a principal ameaça à estabilidade de uma sociedade tradicional, mas a invasão de ideias estrangeiras, onde a impressão e o discurso avançam cada vez mais do que exércitos e tanques”. Nesse contexto, é possível observar que marcas, instituições, órgãos públicos e lideranças políticas estão vulneráveis como nunca antes, visto que qualquer manipulação de informação contra seu favor pode resultar em uma reputação negativa.


As narrativas disputadas


  • Guerra Rússia e Ucrânia



A guerra de informação se faz presente em cenário global, como por exemplo na Guerra Rússia e Ucrânia, dado que houve interferência dos Estados Unidos no conflito, que por sua vez utilizou dos meios informacionais e comunicativos com objetivo de pressionar a Rússia, com a desconexão da mídia russa no exterior e imposição de sanções, além da Apple, Intel, META, Amazon, Google, Microsoft, Netflix, Sony, TSMC cortarem negócios com a Rússia.


Imagem que circula na mídia russa satirizando a “infowar” (guerra de informações) e mostra a bandeira dos EUA e OTAN.
Imagem que circula na mídia russa satirizando a “infowar” (guerra de informações) e mostra a bandeira dos EUA e OTAN.

Entretanto, esse recurso foi usado durante todo o conflito também com fins de manipulação da opinião popular, ademais dos conflitos militares, uma vez que o EUA buscando enfraquecer a Rússia, expandir suas exportações de energia e indústria militar incentivou o conflito Rússia e Ucrânia, ao mesmo tempo que vendia a imagem de ser o “representante da justiça” e a propaganda de “russofobia” para todo o ocidente. Com isso, a União Europeia restringiu veículos russos para evitar fake news, como Youtube e Google. Enquanto a Rússia possui um grande controle sobre sua mídia que sempre é mantida alinhada com as ideias do governo, com restrição a jornalistas independentes e um grande controle sobre o discurso da guerra, vendendo um discurso de EUA e OTAN como agressores que ameaçam a segurança russa, aliás propagou também exagero sobre suas forças militares e sua “invencibilidade”.


Posteriormente, os EUA afirmaram publicamente que a Rússia investe em campanhas de desinformação com objetivo de manipular o público, porém tal afirmação foi feita sem embasamento e recusaram-se a fornecer fontes confiáveis. 


  • União Soviética


Um grande destaque na manipulação de imagens foi por parte da União Soviética com a foto manipulação da Era Stalin, mesmo muito antes da era das fake news. Em que após a morte de Lênin, Josef Stalin e Leon Trotsky passaram a dividir influências. Após disputas, Stalin assumiu e tratou de apagar o rival da história


A imagem retrata uma foto acima com Trotsky presente e abaixo a foto com ele removido, com fins de manipulação. Imagem de domínio público.
A imagem retrata uma foto acima com Trotsky presente e abaixo a foto com ele removido, com fins de manipulação. Imagem de domínio público.

Ele tinha como objetivo apagar pessoas reais da história, muitas vezes por terem sido mortas pela KGB, apagar rivais, fracassos soviéticos e enaltece-los na imprensa global, visto que visavam outros países comunistas e para isso precisavam demonstrar que o governo era efetivo.


Foto: The David King Collection at Tate
Foto: The David King Collection at Tate

  • Potência global: Estados Unidos


Atualmente, em agosto de 2025, uma das principais ONG, a WRH acusou Trump de ter manipulado dados em seu relatório anual que divulga direitos humanos violados, em que países aliados não foram apontados, porém países em que há governos atacados pela Casa Branca foram apresentados com uma “piora no cenário”. Conforme Sarah Yager, diretora da HRW em Washington, entrevistada pela Agência Brasil, “O novo relatório de direitos humanos do Departamento de Estado é, em muitos aspectos, um exercício de encobrimento e enganação. O governo Trump transformou grande parte do relatório em uma arma que faz os autocratas parecerem mais palatáveis e minimiza os abusos de direitos humanos que ocorrem nesses lugares”. Vale ressaltar a menor credibilidade que foi atribuída pelo governo Trump a alguns casos em particular, como violações de direito das mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiências.


Além disso, a tecnologia nos Estados Unidos também foi utilizada no governo Trump em massa, um desses usos foi para propagar xenofobia. De acordo com o jornal britânico Guardian, que foi o primeiro a propagar a manipulação, após quatro dias da posse de Trump, milhares de publicações antigas de imprensa a respeito de imigrantes foram atualizadas, em todos os 50 estados americanos, com o objetivo de parecerem recentes


  • Potência global: China


Na China, a icônica foto, conhecida por muitos, de um homem interrompendo o avanço de uma fileira de tanques durante os protestos na Praça da Paz, Avenida da Paz Eterna de Pequim, após o Partido Comunista chinês ter ordenado uma repressão de manifestantes pró-democracia violenta, entretanto, a imagem não é conhecida pela China, porque é alvo de censura, por isso não é divulgada livremente pelo país.


Foto tirada por Jeff Widener da Associated Press
Foto tirada por Jeff Widener da Associated Press

Ainda hoje a censura perdura, com a intenção do governo chinês de ter controle narrativo nacional e apagar da memória pública o Massacre da Praça da Paz Celestial de 1989, para isso a foto é bloqueada digitalmente e não circula na internet chinesa, também com a ajuda de IA para detectar e bloquear automaticamente a foto e até mesmo metáforas e imagens semelhantes a ela (um objeto solitário na frente de vários outros enfileirados). Por isso, os jovens chineses cresceram sem saber da existência dessa foto e sem nunca tê-la visto, consequente a anos de sistema de censura.


  • Conflito Israel e Palestina


Dentre os países aliados dos quais as violações foram omitidas, há Israel, em que o departamento dos EUA omitiu a forçada de deslocamento em massa de palestinos na Faixa de Gaza, além da privação de água, eletricidade, uso da fome como arma de guerra e danos e destruição a infraestruturas de Gaza, como casas, escolas, universidades e hospitais, conforme a Human Rights Watch e tal conflito gerou ampla polarização e discussão no cenário global, de forma que a omissão feita pelo EUA seja um tanto quanto conveniente para a manipulação de discursos no devido momento.


Mas a mídia exerceu um papel fundamental no conflito, pois a falta de acesso aos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) por jornalistas fez com que a narrativa israelense prevalecesse e os jornalistas palestinos não podiam apresentar perspectivas independentes, visto que eram coagidos a apresentar declarações oficiais de Israel. Ademais, foi imposto impedimento de acesso, restrições a contas em plataformas e agressões físicas, segundo dados do Comitê de Proteção para Jornalistas (CPJ), foram 20 jornalistas mortos por forças militares israelenses em 22 anos.


A imprensa do conflito violento gerou perspectivas e opiniões em contexto mundial, de maneira que países demonstraram apoios unilaterais, incluindo potências, como o apoio para Israel por parte dos Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido e também Canadá e Austrália, já Palestina, apresenta apoio da China e Rússia em algumas posições, mas no geral majoritariamente países do Oriente Médio.


Conclusão


Em um mundo em que somos constantemente expostos a diversas informações, com tanta facilidade, o que diferencia é a capacidade de interpretação. E interpretar exige repertório, senso crítico, inteligência humana, algoritmos bem treinados para a busca de informações verídicas e senso de contexto.


Em suma, a procura não deve ser apenas combater a “fake news”, mas de compreender os fluxos informacionais, qual sua repercussão na sociedade, sua origem, quem propaga e sua intencionalidade para que a desinformação seja verdadeiramente evitada.


Portanto, a transparência por parte de governos e liberdade de expressão também são cruciais para não ser condenado a entender apenas um ponto de vista moldado pelo Estado ou imprensa, a busca pelo entendimento de ambos os lados deve ser constante.



Laura Castro


Fontes:


 
 
 

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