Segurança Pública no Brasil: mais repressão ou mais prevenção?
- Geo Expand
- 13 de dez. de 2025
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Segurança pública é um conceito central para a estabilidade social e o exercício de direitos fundamentais, consagrado no Artigo 144 da Constituição Federal de 1988, que estabelece que a segurança pública é dever do Estado e direito de todos. Ela engloba não apenas a atuação policial repressiva, mas também estratégias de prevenção, políticas sociais integradas e participação da sociedade civil.
No Brasil, o debate entre repressão e prevenção na segurança pública é intenso e polarizado: uma parte defende o reforço de ações punitivas e repressivas como resposta à criminalidade, enquanto outra enfatiza a necessidade de políticas estruturais de prevenção que atuem sobre as raízes da violência. Este artigo retoma a complexidade dessa discussão, analisando o contexto histórico, os modelos de atuação, as evidências empíricas e seus impactos sociais.

O Contexto da Segurança Pública no Brasil
Historicamente, o Brasil tem figurado entre os países com as mais altas taxas de homicídios do mundo, situação que tornou a segurança pública uma prioridade na agenda pública e nos programas de governo.
A estrutura atual de segurança pública no país é fragmentada: a responsabilidade é compartilhada entre União, estados e municípios, com peso significativo nas polícias militar e civil estaduais. Essa fragmentação dificulta a coordenação de políticas integradas, limitando o desenvolvimento de estratégias nacionais consistentes.
Além disso, o sistema de segurança público nacional carrega a herança de uma cultura de controle social com forte ênfase na repressão e respostas punitivas, muitas vezes resultando em letalidade policial elevada e violação de direitos humanos, um problema documentado em várias regiões.

Repressão: Características, Avanços e Limitações
A repressão criminal refere-se a medidas de confronto direto com a criminalidade após a ocorrência de delitos, policiamento ostensivo, prisões, operações policiais, prisões de líderes de facções e leis mais duras. Essas medidas são frequentemente apelidadas de “guerra ao crime”.
Exemplo de políticas repressivas recentes: No fim de 2025, o Congresso aprovou uma lei com medidas mais punitivas contra facções criminosas e aumento de penas para crimes relacionados a organizações armadas. Críticos classificam a lei como excessivamente repressiva por não incorporar soluções estruturais de prevenção, como inteligência e reforma penitenciária.
Efeitos positivos imediatos: Pesquisas e análise de dados mostram que ações repressivas direcionadas, como blitzes policiais em pontos críticos, podem reduzir crimes em curto prazo, uma redução de até 35% em áreas focalizadas foi observada em um estudo de policiamento em Fortaleza.
Limitações da repressão como estratégia exclusiva: Apesar de sua eficácia pontual, a repressão isolada enfrenta limitações estruturais importantes:
Prisões em massa sem reabilitação tendem a aumentar a reincidência e fortalecer facções criminosas dentro do sistema carcerário.
A violência policial elevada e a violação de direitos civis geram desconfiança entre a população, prejudicando a cooperação com as autoridades.
O foco exclusivo na punição ignora fatores sociais e econômicos que impulsionam a criminalidade, como exclusão, pobreza e desigualdade.

Repressão vs. Prevenção: Evidências e Tensões na Política Pública
A literatura acadêmica costuma apontar a ineficiência do modelo repressivo isolado no Brasil frente à necessidade de estratégias multissetoriais. O modelo tradicional está associado ao controle militarizado e à reação posterior ao delito, sem combate adequado às causas estruturais.
Por outro lado, programas de prevenção exigem maior integração entre segurança pública, educação, assistência social e políticas públicas de redução da desigualdade, um desafio político-administrativo considerável.
Dados recentes sobre homicídios e políticas integradas: Nos últimos anos o Brasil apresentou queda nas taxas de homicídio, registrada como a mais baixa em mais de uma década. Especialistas atribuem esse movimento não apenas à repressão, mas também a medidas integradas e um ambiente conjuntural favorável.
Percepção pública e política: Apesar de quedas estatísticas, a sensação de insegurança cresce entre a população, pressionando os governantes a adotar medidas punitivas mais duras amplificando a lógica repressiva em detrimento de prevenção eficaz.

Preconceitos Estruturais e a Segurança Pública
A discussão sobre repressão versus prevenção só pode ser completa quando analisamos quem recebe a repressão e quem recebe a prevenção no Brasil. A segurança pública não é aplicada de modo uniforme: ela está atravessada por racismo, machismo, classismo, LGBTfobia, etnocentrismo contra povos indígenas, e pelo histórico brasileiro de criminalização da pobreza.
Segundo a jurista Ana Flauzina, a estrutura penal brasileira “funciona como um dispositivo de gestão de populações indesejadas”, reforçando marcadores de raça e classe desde o período escravocrata até hoje.
Raça e letalidade policial: Dados de institutos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram continuamente que:
Cerca de 77% das vítimas de homicídio no Brasil são pessoas negras;
Negros representam mais de 65% das mortes por ação policial;
Jovens negros têm 2,6 vezes mais chance de serem assassinados do que jovens brancos.
O racismo institucional, conceito debatido por autores como Silvio Almeida, ajuda a explicar esse padrão: a violência contra corpos negros é naturalizada pelo sistema e aparece como uma “consequência inevitável” de uma política de repressão.
Classismo e território: Não é coincidência que operações policiais mais violentas ocorram em favelas e periferias urbanas, como o Complexo do Alemão, Jacarezinho e Paraisópolis. Áreas pobres ficam marcadas como “espaços de criminalidade”, e não como espaços de vida e cidadania produzindo abordagens violentas e pouca presença de políticas sociais.
Segundo Loic Wacquant, teórico do “Estado penal”, regiões pobres recebem mais polícia e menos direitos.
Gênero e feminicídio: O Brasil ocupa uma das posições mais altas em feminicídios na América Latina. Em 2023, foram registrados 1.463 feminicídios, ou cerca de 4 por dia. A cada 7 horas, uma mulher é morta simplesmente por ser mulher.
Mas as mulheres negras novamente estão no centro das estatísticas: elas representam 61% das vítimas.

Isso reforça que segurança pública não pode ser pensada sem:
Políticas de enfrentamento à violência doméstica,
Educação de gênero,
Estrutura de proteção à mulher,
Fortalecimento da Lei Maria da Penha,
Atendimento especializado.
LGBTfobia e invisibilidade
Pessoas LGBTQIA+ sofrem violência física, sexual e simbólica em níveis muito altos, principalmente em contextos escolares, familiares e policiais. A repressão, nesses casos, aparece na falta de acolhimento institucional e na dificuldade de registrar denúncias. Prevenção envolve políticas de proteção, educação sexual e combate a discursos de ódio.
Indígenas e racismo territorial: O Brasil possui também uma longa história de violência contra indígenas, com problemas que vão desde:
Ausência de proteção territorial,
Violência de garimpeiros e invasores,
Lentidão do Estado para garantir direitos.

A segurança pública para esses grupos é quase inexistente, e a repressão aparece mais como negligência do que como força policial.
Prevenção: caminhos históricos e desafios
A prevenção demanda investimentos estruturais. Países com baixos índices de violência como Japão, Portugal e Alemanha têm sistemas que priorizam:
Educação forte
Participação comunitária,
Programas de saúde mental,
Políticas de inclusão social,
Confiança entre polícia e comunidade,
Urbanismo social.
Apesar de o Brasil não ter uma longa tradição preventiva, existem experiências positivas:
Programa Fica Vivo! em Minas Gerais: reduziu os homicídios entre jovens em até 50% com oficinas culturais e mediação de conflitos.
Pacto pela Vida, em Pernambuco: reconhecido internacionalmente, integrou a polícia, saúde, educação e assistência social.
UPPs no início do projeto (antes da deterioração): mostraram resultados em redução de homicídios quando havia diálogo com comunidades.
Esses casos demonstram algo importante: a prevenção funciona quando é integrada e contínua.

Soluções para um modelo mais eficaz de segurança pública
Reforma nas polícias: Unificação parcial da Polícia Civil e Militar para mais comunicação e menos burocracia.
Treinamento contínuo em direitos humanos, resolução de conflitos e desescalada.
Câmeras corporais, comprovadamente reduzem mortes em abordagens no estado de São Paulo.
Fortalecimento das ouvidorias independentes.
Investimento massivo em educação e cultura: A prevenção social é comprovadamente o maior fator de redução de criminalidade no longo prazo.
Escolas integrais com estrutura real
Acesso à cultura e esporte
Cursos profissionalizantes;
Programas para jovens em situação de vulnerabilidade.
Políticas de combate a desigualdades: Para reduzir violência, é necessário reduzir
desemprego juvenil,
desigualdade de renda,
abandono escolar,
falta de oportunidades.
Isso envolve programas de transferência de renda, acesso a moradia, redução da fome e políticas urbanísticas.
Sistema prisional humanizado: Repressão sem reabilitação piora o crime. O Brasil tem:
820 mil presos;
mais de 40% sem julgamento;
prisões dominadas por facções.
Soluções:
penas alternativas para crimes não violentos;
estudos dentro das prisões;
oficinas de trabalho remunerado;
reintegração social no retorno.
Políticas específicas para mulheres
Para combater feminicídios:
delegacias da mulher 24h;
abrigos emergenciais;
programas de renda para mulheres que querem sair de relações abusivas;
educação emocional nas escolas;
sistema rápido de acolhimento a denúncias.
Segurança pública com foco em saúde mental: Grande parte da violência cotidiana está ligada a
estresse urbano,
uso problemático de álcool,
transtornos emocionais,
ausência de assistência psicológica.
fortalecer CAPS e atendimento comunitário é essencial.
Participação social e policiamento comunitário: A polícia precisa ser vista como parte da comunidade, e não como uma força de ocupação. Isso reduz medo, aumenta cooperação e diminui violência.
Tecnologia e inteligência policial
análise preditiva,
integração de dados,
mapeamento de áreas de risco,
câmeras corporais,
sistemas de denúncia anônima.
Combate às milícias: Milícias se tornaram uma das maiores ameaças à segurança pública. Enfrentá-las exige:
investigação federal integrada,
controle do mercado de armas,
punições severas para servidores envolvidos,
proteção a testemunhas.
A pergunta “Repressão ou prevenção?” não deve ser respondida com um “ou”, mas com um “como”.
A repressão é necessária em casos críticos, mas não pode ser a base da segurança pública em um país tão complexo quanto o Brasil. A prevenção social, econômica e comunitária é a única forma de reduzir a violência de forma duradoura, atacar as causas e construir uma sociedade menos desigual.
Mas isso só funciona quando superamos preconceitos estruturais, entendemos que a violência não afeta a todos igualmente, e criamos políticas que tratem pessoas com dignidade, igualdade e humanidade.
Como afirmou o criminólogo Nils Christie, “quanto mais uma sociedade exagera na punição, mais ela se afasta da ideia de justiça”.
O Brasil, portanto, precisa decidir se quer continuar alimentando um ciclo de violência e repressão seletiva ou investir em prevenção, cidadania e redução das desigualdades que realmente constroem segurança.

Referências Bibliográficas
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