Segurança energética e geopolítica: como a disputa por recursos molda as relações internacionais no século XXI
- Geo Expand

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Uma análise de como recursos energéticos ainda têm um papel fundamental na configuração da política internacional
A segurança energética é vista por muitos como um dos motivos geopolíticos que mais repercute e leva a ações estratégicas. Segurança energética é a garantia de fornecimento ininterrupto, confiável e a preços acessíveis de energia para atender às necessidades de um país ou região, seja por meio de fontes renováveis ou não.
Historicamente, o controle de recursos energéticos sempre esteve associado a disputas geopolíticas e isso continua acontecendo até os dias atuais. Entretanto, mudou parcialmente as disputas por recursos naturais, que antes eram somente o carvão e petróleo, atualmente, são os minerais e terras raras que estão em jogo.
Por isso, a segurança energética no século XXI deixou de ser apenas uma questão econômica para se tornar um pilar central das relações internacionais, moldando alianças, conflitos e a balança de poder global. A transição para fontes de energia limpa não eliminou a competição, mas a transformou: o controle sobre petróleo e gás está sendo complementado pela disputa por minerais críticos, como lítio, cobalto e terras raras.
Embora combustíveis fósseis ainda movam a economia e forneçam poder político (como no Oriente Médio e Rússia), a transição energética está criando uma nova "geopolítica de recursos", focada na cadeia de suprimento de tecnologias de baixo carbono. O poder está migrando para quem controla a extração, refino e processamento de minerais como lítio, níquel e terras raras, com a China ocupando uma posição de liderança nesta cadeia.
Todavia, a dependência energética e a localização dos recursos naturais necessários, podem levar a conflitos econômicos e militares e levam a criação de alianças e acordos entre países. Um exemplo atual dessa perspectiva é a entre Irã e Estados Unidos / Israel, onde não somente ideologias ou crenças estão em pauta, mas também motivos geopolíticos estratégicos, que é o petróleo - além de que ações como essa afetam diretamente o valor do petróleo no mercado e sua limitação produtiva.
E neste cenário, países da América Latina e África tornam-se espaços estratégicos de disputa por contratos e investimentos, enfrentando o desafio de evitar a "armadilha do neoextrativismo" tecnológico e garantir autonomia econômica.

A corrida pelos minérios
Os diferentes tipos de energia renováveis são o que possibilita pensar na segurança energética, pois é por causa dessas fontes alternativas aos produtos fósseis, que possibilita a geração de energia limpa e a garantia de um fornecimento estável.
Do ponto de vista geopolítico, basicamente, quem controlar esses minerais – e, sobretudo, suas cadeias de valor – controlará as bases da segurança energética, da competitividade industrial e até da autonomia militar nas próximas décadas.
Nesse contexto, destaca-se a competição tecnológica, pois será o domínio sobre as melhores e mais avançadas tecnologias que permitiram (e já permitem) os países saírem na frente desta disputa. Desde o início da transição energética, nenhum país foi tão certeiro quanto a China. Segundo o relatório Raw Power (Climate Energy Finance) e levantamentos de entidades como a Agência Internacional de Energia (AIE), desde 2023 Pequim já destinou mais de US$ 120 bilhões à mineração e ao processamento de lítio, níquel, cobre e terras raras, em diversos continentes.
A principal diferença não se dá apenas pelo volume de capital investido, mas sim toda a integração que ocorre, para ser um sistema completo - que vai desde a mineração das terras raras até a produção de tecnologias para carros elétricos, por exemplo.
E os números mostram isso, com cerca de 90% da capacidade global de refino de terras raras está sob controle chinês e aproximadamente 60% do processamento global de lítio, peça-chave da eletromobilidade, é feito lá.
Enquanto outros países do ocidente ainda discutem em como reduzir suas dependências no petróleo e migrar para a energia limpa, a China se mostra como um líder global nos processos de segurança energética.

Por que a energia pode ser um elemento geopolítico?
O governo norte-americano publicou, nos últimos anos, listas de minerais críticos e lançou iniciativas para fortalecer a mineração doméstica e acordos com países aliados. Programas como o Inflation Reduction Act vinculam incentivos à indústria verde a cadeias de suprimentos mais diversificadas e menos dependentes da China e o Projeto Vault é uma iniciativa dos EUA, anunciada em fevereiro de 2026 com um orçamento de US$ 12 bilhões, focada em criar uma reserva estratégica de minerais críticos e terras raras.
A União Europeia avançou com o Critical Raw Materials Act, estabelecendo metas de produção, processamento e reciclagem dentro do bloco, além de buscar parcerias estratégicas com países fornecedores na América Latina e África.
Japão, Coreia do Sul e Índia também estruturam políticas para garantir acesso estável e previsível a esses insumos, seja via investimento direto, diplomacia econômica ou consórcios com empresas privadas
Há um movimento harmônico em todas essas propostas, ninguém quer substituir a dependência do petróleo do Oriente Médio por uma dependência de minerais processados majoritariamente na China. É possível argumentar que, possivelmente, isso seja uma herança das ações imperialistas do século XIX.
Mas como nada na geopolítica pode ser analisado somente por um lado, esse domínio chinês também vem de outros fatores, como suas parcerias com países do sul global (como os latinos americanos e africanos) para que haja um fornecimento contínuo das terras raras (minerais essenciais para tecnologias modernas).
Por um lado é muito interessante que tenha esses acordos bilaterais ou multilaterais, que são muito influenciados também pela Belt and Road Initiative (também conhecido como a Nova Rota da Seda Chinesa), pois leva ao fluxo investimentos nos países. Por outro lado, tal cenário revela que os países do Sul continuam em suas posições de fornecedores de matéria-prima e importando tecnologias. Ou seja, países tão ricos como os da América Latina, tem condições reais de usarem esses metais para seu próprio desenvolvimento, além de investirem em pesquisas nacionais em suas universidades, saindo assim do chamado “dig-and-ship" (entendido como enviar as matérias-primas).
A análise que se pode tirar de tudo isso é que o movimento global é em direção a redução de dependência de um único país e de uma única fonte de energia, justamente para que a segurança não seja limitada ou barrada por interesses de uma nação ou bloco, disputas econômicas e para não levar aos países menos ricos a desastres econômicos também - mesmo que se comparado, é muito mais difícil para países em desenvolvimento saírem do uso de combustíveis fósseis para os renováveis, ainda mais se houver a pressão das potências para que eles continuem sendo somente exportadores de materiais).

A América Latina em destaque
Para finalizar essa análise, é importante apontar que, por mais que existam diferentes formas de produzir energia limpa, há impactos ambientais nesse processo, seja pelo carbono emitido, pelo desmatamento ou pela retirada de povos indígenas de suas áreas por causa da mineração - fator relevante, já que muitas dessas regiões são ricas em terras raras. Ou seja, considerar apenas os benefícios das energias renováveis não significa que não existam outros impactos envolvidos.
A América Latina desempenha - e deve ampliar - um papel importante no abastecimento da economia mundial com minerais críticos para a transição energética. Ao mesmo tempo, há uma retomada do protecionismo de recursos naturais na região, com maior participação do Estado em contratos e exploração, além de iniciativas para avançar nas cadeias produtivas.
Os altos preços desses minerais podem aumentar as receitas públicas, mas também trazem incertezas: até que ponto essa dependência pode gerar instabilidade econômica? Além disso, essas atividades continuam sendo alvo de mobilizações sociais na região, agora voltadas especialmente aos minerais críticos.
Mesmo com avanços tecnológicos, como o aumento de painéis solares e turbinas eólicas no Sul Global, ainda não se observa uma redução significativa no uso de combustíveis fósseis. Por isso, alguns autores utilizam o termo “acréscimo de energia”, indicando que há expansão, mas não necessariamente substituição das fontes tradicionais.
O que podemos concluir disso tudo?
A dinâmica geopolítica contemporânea evidencia que a transição energética não substitui a lógica de disputa por poder, mas a reconfigura. Se, no século XX, o controle de petróleo e gás estruturava a influência internacional, no século XXI esse eixo se amplia para incluir minerais críticos e cadeias produtivas estratégicas.
Nesse contexto, a segurança energética deixa de ser apenas uma questão de abastecimento e passa a envolver autonomia tecnológica, capacidade industrial e inserção competitiva nas cadeias globais de valor. A crescente corrida por lítio, cobalto e terras raras demonstra que a transição para fontes limpas não elimina assimetrias -apenas desloca seus fundamentos.
Para países do Sul Global, especialmente na América Latina, esse cenário representa uma oportunidade ambígua: ao mesmo tempo em que amplia sua relevância estratégica, também reforça o risco de perpetuação de padrões históricos de dependência e especialização primária.
Dessa forma, mais do que garantir acesso a recursos, o desafio central passa a ser a construção de estratégias que permitam agregar valor, fortalecer capacidades internas e evitar a reprodução de assimetrias estruturais. Em última instância, a geopolítica da energia no século XXI revela que o poder não reside apenas na posse dos recursos, mas no domínio sobre suas cadeias, tecnologias e usos.

Sobre o artigo
Esse artigo é uma análise de como a segurança energética é tratada no século XIX, com suas vantagens e desvantagens, além de como embates geopolíticos ocorrem na disputa por fontes de energias mais sustentáveis.
Autoria
Melyssa Pantaroto Rodrigues
Referências
CNN BRASIL. O petróleo do século XXI: geopolítica e soberania energética. Disponível em:
Acesso em: 15 abr. 2026.
DIALOGUE EARTH. Sul Global enfrenta disputa de potências por seus recursos naturais. Disponível em:
https://dialogue.earth/pt-br/energia/sul-global-enfrenta-disputa-de-potencias-por-seus-recursos-naturais/. Acesso em: 15 abr. 2026.
DIALOGUE EARTH. Devemos evitar conflitos e injustiças na mineração? Disponível em:
Acesso em: 15 abr. 2026.
ESTADÃO. Petróleo como ferramenta geopolítica na crise energética. Disponível em:
Acesso em: 15 abr. 2026.
INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY (IRENA). A new world: the geopolitics of the energy transformation. Disponível em:
https://www.irena.org/-/media/files/irena/agency/publication/2019/jan/global_commission_geopolitics_new_world_2019.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026.
JOTA. A geopolítica no caos petrolífero. Disponível em:
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-geopolitica-no-caos-petrolifero. Acesso em: 15 abr. 2026.




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