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Hard power, economia e sanções: como Estados utilizam instrumentos coercitivos na política internacional contemporânea

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    Geo Expand
  • há 6 dias
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Entre coerção e estratégia: o uso do poder econômico e militar como ferramenta de influência na ordem internacional contemporânea






Distribuição das sanções aplicadas pelos Estados Unidos no mundo (aprox. 2024), destacando o uso da economia como instrumento de pressão política.
Distribuição das sanções aplicadas pelos Estados Unidos no mundo (aprox. 2024), destacando o uso da economia como instrumento de pressão política.


Contexto histórico - Construção da perspectiva acerca de “poder”


Segundo Joseph Nye, “poder” pode ser definido como a "capacidade de efetuar resultados desejados e, se necessário, de mudar o comportamento de outros para que isso aconteça". 


O cientista político também explica que o poder pode ser exercido de três maneiras, através de "ameaças e coerção” (Sticks), “incentivos e pagamentos” (Carrots) ou da atração, na qual faz os outros quererem o que você deseja. 


Sendo assim, pode-se observar que essas percepções refletem até os dias de hoje, na forma como os governos se organizam. Desde o início dos conflitos do século XX, que foi marcado por reviravoltas e ascensão de países, foi-se construindo estratégias políticas, sociais e econômicas, onde grandes potências mundiais da época evidenciaram o quanto o nacionalismo exacerbado pode interferir nos interesses de um país sobre o outro. 


Tem-se como maior exemplo o período entreguerras, fase que sucedeu a Primeira Guerra Mundial e antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, a grande potência mundial dos Estados Unidos prevaleceu como instância máxima de poder uma vez que contribuiu para a reconstrução da Europa após a Primeira Guerra. 


Porém, essa reconstrução funcionou como forma de coerção econômica, de forma seletiva e limitada, onde os EUA adotaram uma medida isolacionista, emprestando e pagando dívidas dos países prejudicados pela perda da guerra. Isso se caracteriza como uma estratégia que podemos chamar de “poder duro” ou "Hard Power


Porém, antes de entender o que é o Hard Power na prática, aplicado no atual cenário mundial, é importante compreender e reforçar alguns conceitos que já estão predefinidos na sociedade, como o de Estado e governo, para que eles servem, e como se comportam (ou como deveriam). 


Um tanque do Exército venezuelano de origem russa participa de um desfile militar durante as comemorações do Dia da Independência, em Caracas, no dia 5 de julho. Foto - Juan Barreto/AFP/Getty Images via CNN Newsource
Um tanque do Exército venezuelano de origem russa participa de um desfile militar durante as comemorações do Dia da Independência, em Caracas, no dia 5 de julho. Foto - Juan Barreto/AFP/Getty Images via CNN Newsource

Na teoria, qual a função de Estado e governo?


No livro “A política é para todos” de Gabriela Prioli, a autora afirma que: “o Estado tem muitas atribuições diferentes, tanto externas quanto internas. Entre as mais importantes estão: garantir a aplicação das leis e a segurança dos cidadãos; promover o bem coletivo e individual, de acordo com os princípios constitucionais [...].” 


“O governo, por sua vez, refere-se aos indivíduos e às instituições que temporariamente administram o Estado, conduzindo a política e a gestão pública. É importante ressaltar que o Estado persiste para além dos governos, que mudam conforme o passar da história”. 


Ou seja, em uma democracia (forma de governo atual, na maioria dos países), os líderes eleitos têm de zelar pela manutenção e sustentação do Estado. Isso é o que podemos chamar de soberania. Ao mesmo tempo que a soberania significa o poder que ele exerce na resolução de conflitos e exercício da ordem jurídica dentro de um território, também significa que o Estado tem sua autonomia em relação aos outros Estados. 


Porém, é aqui que se reforça a ideia central e que já deveria estar em mente na execução de poder dos países: um Estado não pode interferir nos assuntos internos de outro Estado soberano, invadindo com forças armadas, realizando comércio sem pagar impostos, etc. 


Sendo assim, pode-se enxergar no cenário atual algumas estratégias mais aplicadas do que nunca do Hard Power, este, que está sendo caracterizado e impulsionado principalmente por tecnologias inovadoras. Entretanto, em comparação com as guerras e atos de séculos passados, estamos vivendo o que se pode chamar de guerra informacional


Membros das forças armadas da Coreia do Norte lotam um estádio em Pyongyang em 2012 durante celebrações em homenagem ao primeiro líder do país, Kim Il Sung. Foto - David Guttenflder, National Geographic Creative
Membros das forças armadas da Coreia do Norte lotam um estádio em Pyongyang em 2012 durante celebrações em homenagem ao primeiro líder do país, Kim Il Sung. Foto - David Guttenflder, National Geographic Creative


Elementos coercitivos na política internacional contemporânea


Na política internacional contemporânea, o hard power permanece como um dos principais instrumentos utilizados por grandes potências para defender interesses estratégicos, ampliar influência e conter adversários. 


Diferentemente de períodos anteriores, em que a coerção estava frequentemente associada apenas ao uso direto da força militar (como vemos nas Guerras Mundiais), atualmente o hard power também se manifesta por meio de sanções econômicas, bloqueios comerciais, pressões diplomáticas e demonstrações de capacidade bélica.


Os Estados Unidos representam um dos exemplos mais evidentes desse uso contemporâneo. Além de possuírem o maior orçamento militar do mundo e uma grande presença de bases em diversas regiões, o país utiliza sanções econômicas como mecanismo de pressão contra governos considerados contrários aos seus interesses, como Irã, Rússia e Venezuela. 


Essas medidas restringem comércio, acesso ao sistema financeiro internacional e circulação de capitais, demonstrando como a economia pode ser convertida em instrumento coercitivo.


A China também combina crescimento econômico com estratégias de hard power. O fortalecimento de suas Forças Armadas, a expansão naval no Mar do Sul da China e a pressão sobre Taiwan revelam o uso da capacidade militar como forma de intimidação e afirmação geopolítica. 


Paralelamente, a dependência comercial de diversos países em relação ao mercado chinês permite que Pequim utilize barreiras econômicas e restrições comerciais como ferramenta de pressão política.


Já a Rússia evidencia o hard power pelo emprego direto da força militar e pela utilização estratégica de recursos energéticos. A intervenção na Ucrânia e o uso do gás natural como mecanismo de influência sobre países europeus mostram como recursos econômicos e capacidade bélica podem atuar conjuntamente para ampliar poder regional e desafiar adversários.


Outros atores também recorrem a práticas semelhantes. A Coreia do Norte utiliza seu programa nuclear e testes balísticos como instrumento de dissuasão internacional, enquanto Israel mantém forte capacidade militar para garantir segurança e projeção regional. Esses exemplos demonstram que, no século XXI, o hard power continua relevante, embora mais diversificado e frequentemente articulado com mecanismos econômicos e tecnológicos.


Dessa forma, percebe-se que a política internacional contemporânea não abandonou a lógica da coerção. Ao contrário, ela adaptou o hard power às novas dinâmicas globais, nas quais tanques, mísseis, mercados, energia e finanças se tornaram instrumentos complementares na disputa por poder entre os Estados.



Fonte -  EPE
Fonte - EPE

Os problemas éticos enfrentados, decorrente do Hard Power 


Embora o hard power seja frequentemente apresentado pelos Estados como instrumento legítimo de defesa, segurança nacional ou preservação da ordem internacional, seu uso levanta profundos dilemas éticos, principalmente quando se observa o impacto humano produzido por essas estratégias. Em teoria, decisões geopolíticas são tomadas em nome de interesses coletivos, porém, na prática, seus

efeitos costumam prejudicar indivíduos comuns, muitas vezes alheios aos conflitos travados entre governos.


As sanções econômicas, por exemplo, costumam ser justificadas como alternativas menos violentas do que a guerra aberta. Entretanto, quando aplicadas de forma que estão sendo atualmente (como vimos), podem provocar inflação, escassez de medicamentos, desemprego e agravamento da pobreza. 


Nesse cenário, surge uma questão moral: é legítimo punir populações inteiras para pressionar líderes políticos? A coerção deixa de atingir apenas estruturas políticas, e passa a alcançar famílias, trabalhadores, crianças e idosos que não tiveram a oportunidade de decidir os rumos de seu país.


No campo militar, o dilema torna-se ainda mais sensível. Mesmo quando intervenções armadas são defendidas como necessárias para combater ameaças ou restaurar estabilidade, dificilmente a violência permanece restrita a alvos estratégicos. 


Thomas Hobbes argumenta em seu livro “Leviatã”, que para formar o Estado, os indivíduos renunciam a uma parte de sua liberdade em troca de segurança. Mas o que adianta se essa segurança se dá por meio de destruições? O hard power se revela como uma contradição por causa disso. 


Há também um problema ético relacionado à desigualdade entre as nações. Nem todos os Estados possuem os mesmos meios militares, tecnológicos ou financeiros. Isso gera um sistema internacional em que a força pode se sobrepor ao diálogo.


Por fim, os desafios éticos do hard power trazem a reflexão sobre qual tipo de ordem internacional se deseja construir. Uma sociedade global baseada exclusivamente na capacidade de punir e intimidar tende a normalizar o sofrimento como instrumento político. Já uma ordem fundada em cooperação, negociação e respeito à dignidade humana reconhece que a estabilidade verdadeira não nasce apenas da força, mas da legitimidade. 


"Se um Estado consegue configurar as leis internacionais de maneira consistente aos seus interesses e valores, suas ações tendem a ser consideradas mais legítimas aos olhos dos outros" Joseph Nye.


Civis observam prédio destruído por bombardeio israelense em Jabalya, na Faixa de Gaza. Foto - Omar El-Qattaa / AFP
Civis observam prédio destruído por bombardeio israelense em Jabalya, na Faixa de Gaza. Foto - Omar El-Qattaa / AFP






Sobre o artigo

Este artigo analisa o papel do hard power na política internacional contemporânea, com foco no uso de instrumentos coercitivos como sanções econômicas, poder militar e pressões diplomáticas. A partir de uma base teórica centrada em Joseph Nye, o texto discute como Estados utilizam a economia e a força como mecanismos de influência e controle, além de examinar os dilemas éticos decorrentes dessas práticas e seus impactos sobre populações civis.


Autoria

Manuella Bazarello









Nota editorial

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autora e não refletem necessariamente a posição de instituições às quais esteja vinculada.

 
 
 

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