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O Papel da Igreja Católica na Colonização Brasileira

  • Foto do escritor: Geo Expand
    Geo Expand
  • 10 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Introdução

A Igreja Católica exerceu ampla influência durante a colonização brasileira (1500–1889), pois possuía uma aliança com Portugal, colonizador do Brasil. Esse acordo era chamado de Padroado e tratava-se de um vínculo entre a Santa Sé (Papa) e a Monarquia Portuguesa, que concedia ao rei português certas responsabilidades com a Igreja em seus territórios.


O longo processo iniciou-se com a chegada dos portugueses ao território brasileiro em 1500, quando a Carta de Pero Vaz de Caminha foi enviada ao rei, a qual denotava um olhar eurocêntrico — ideias e pensamentos que visavam à supremacia da cultura europeia e ocidental. O país foi permanentemente influenciado, ainda hoje repercute na cultura da sociedade, visto que moldou a educação, a identidade religiosa, os costumes e até mesmo a arquitetura.


Como é possível observar no trecho retirado da carta: “o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente”, o documento reforça a intenção de converter os povos indígenas ao cristianismo, associando a “salvação” à conversão religiosa.


Pintura de Oscar Pereira da Silva retratando a chegada dos portugueses em Porto Seguro
Pintura de Oscar Pereira da Silva retratando a chegada dos portugueses em Porto Seguro

Religião: instrumento de poder

Diante desse cenário, a religiosidade serviu como justificativa para o controle, a violência e a dominação dos povos indígenas, além de ser um poderoso instrumento para consolidar o domínio português no território brasileiro.


Para que essa consolidação ocorresse, diversos sistemas foram implementados pelos colonizadores, muitos dos quais deixaram influências que persistem até hoje.


Pintura retratando elevação da Cruz em Porto Seguro, Bahia
Pintura retratando elevação da Cruz em Porto Seguro, Bahia

Um exemplo são as missões jesuíticas, também conhecidas como Missões ou Reduções, lideradas por padres como José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, que tinham como objetivo “integrar” os indígenas por meio dos aldeamentos missionários: centros onde se ensinavam religião, língua portuguesa e costumes europeus, ao mesmo tempo em que se enfraqueciam as tradições e crenças originais desses povos.


Essas missões visavam não só o ensino do catolicismo e a conversão de novos fiéis, mas também a eliminação da cultura indígena e a facilitação de sua dominação.


Os jesuítas foram, inclusive, os que mais lutaram contra a escravização direta dos índios, mas utilizavam-nos como mão de obra gratuita nas missões e atividades econômicas, como a coleta das chamadas “drogas-do-sertão”. Assim, a Igreja exerceu papel duplo: protetora e exploradora, catequizando e, ao mesmo tempo, integrando os indígenas ao sistema colonial.


A influência na educação

Além da influência política e territorial, o domínio também desempenhou papel fundamental no desenvolvimento educacional e cultural brasileiro. Um exemplo é A Companhia de Jesus, fundada em 1540, responsável pela criação das primeiras escolas e colégios do país. 


Essas escolas e colégios buscavam ensinar leitura, escrita, latim e doutrinas cristãs, com o principal objetivo de evangelizar os povos indígenas e filhos de colonos, de forma que ao lecionarem, os padres jesuítas impunham visões de mundo cristã e ocidental, gradativamente apagando a cultura dos povos nativos e africanos.


Consequentemente, a igreja foi responsável por estabelecer a base educacional brasileira e transformar a cultura local com a fé católica, mentalidade europeia e seus valores morais.


Os jesuítas impunham, portanto, um padrão educacional europeu, fora da realidade local, desvalorizando completamente os aspectos culturais dos índios e dos negros. Ainda assim, alguns sacerdotes participaram de rebeliões contra Portugal, expressando opiniões próprias, embora essas não representassem a posição oficial da Igreja.


A influência na cultura

No campo moral, sua presença foi igualmente importante, como para a manutenção do colonialismo, devido a moralidade religiosa, que buscava reforçar obediência e ordem social em meio à sociedade. Ademais, problemáticas como a escravidão e a submissão da mulher ao homem, também procuraram ser mantidas por justificativas religiosas, como a “vontade divina”.


A religião ditava também o costume e comportamento dos povos locais, isso incluía o casamento, a sexualidade, as festas e modo de se vestir. Além de impor sacramentos obrigatórios, como o batismo e matrimônio.


A religião praticada pela população nesse período foi marcada pela mistura de tradições europeias com contribuições africanas e indígenas. Essa fusão — chamada sincretismo religioso — não agradava ao clero católico, que via nela uma “impureza da fé”. Para combater isso, eram frequentes as Visitações do Santo Ofício (Inquisição), enviadas de Portugal. As regiões do Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Grão-Pará e Bahia foram as que mais receberam tais visitas, devido à grande presença de índios, negros e também de judeus e cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo, muitas vezes à força). Esses grupos eram perseguidos sob a acusação de praticar secretamente o judaísmo.


Apesar da violência e repressão, as ações inquisitoriais nunca conseguiram eliminar o sincretismo religioso, principalmente entre os negros escravizados.


Um dos maiores representantes da Igreja nesse contexto foi o Padre Antônio Vieira, célebre orador e escritor, autor de obras como Sermão da Sexagésima, Sermão dos Peixes e Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda, nas quais misturava fé, crítica e defesa dos povos oprimidos.


Na época da Inquisição, nunca houve um tribunal fixo estabelecido no Brasil, porém exerceu ampla influência, através de visitadores, vindos de Portugal, que eram chamados de “visitadores do Santo Ofício” e proliferavam perseguições religiosas pela colônia, como práticas pagãs, hereges, muçulmanos, judeus convertidos e pessoas acusadas de feitiçaria ou perseguição por comportamentos julgados pela doutrina como “imorais”, como não se casar, homossexualidade e relações extraconjugais.


Arquitetura

Ademais, a arquitetura no período colonial foi fortemente influenciada pela presença das ordens religiosas e marcada por três períodos distintos, a primeira fase (1549-1654) modificou o litoral, com a chegada dos jesuítas liderados por Manoel de Nóbrega em 1549, na Bahia; o segundo momento (1640-1730) é caracterizado pela expansão territorial com ocupação no interior, que houve a construção de templos e grandes conventos; e por fim a terceira (1701-1808) com construção de igrejas e capelas menores.


Foto que mostra a Igreja de Santa Rita, em Paraty
Foto que mostra a Igreja de Santa Rita, em Paraty

Entretanto, os projetos arquitetônicos visavam aspectos como funcionalidade, estética e construção. Os jesuítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos atribuíam especificidades que deveriam ser seguidas, mas também havia em lugares mais remotos, capelas e igrejas de autoria popular.  


O período também revelou nomes importantes das artes sacras coloniais, como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que projetou e esculpiu várias igrejas em Minas Gerais (em Vila Rica, Sabará e Congonhas do Campo). Entre suas obras destacam-se Os Doze Profetas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, e os conjuntos dos Passos da Paixão de Cristo. Outro nome importante foi o Mestre Valentim, autor do projeto do Passeio Público, no Rio de Janeiro.


Na música sacra, destacou-se o Padre José Maurício Nunes Garcia, do século XVIII, compositor de mais de 400 obras, como a Missa de Réquiem e a Missa Pastoril para a Noite de Natal, que marcaram o início da tradição musical erudita no Brasil.


Conclusão

Em suma, a ideologia religiosa não foi apenas um meio de fé, mas também um mecanismo de poder e disciplina social, que moldou comportamentos e mentalidades, pelo controle de pensamentos, visto que controlavam a educação, fé e valores morais por meio de seu monopólio, que estruturou cultura, política e vida cotidiana dos brasileiros durante séculos.


Portanto, também vale ressaltar que foi ambígua, já que originou educação e cultura, mas impôs aos povos, destruiu identidade indígena e africana, punia qualquer ameaça à ortodoxia religiosa e estabelecia medo do pecado e condenação para manter o povo obediente e dependente da mentalidade cristã, que apresentava-se como a “salvação”.


FONTES:



 
 
 

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